24/03/2026
Desde que me entendo por gente, anunciam intervenções no bairro do Comércio.
Intervieram tanto que o abandono virou método.
A arquitetura permanece ereta.
Mesmo quando tudo ao redor cede.
Uma coluna fálica atravessa o tempo com mais dignidade do que qualquer plano recente.
Antes dela, um tapume improvisa contenção.
Depois, a frase que tudo permite:
“faça sexo.”
Não como convite.
Como diagnóstico.
No fundo, um refrão insiste, atravessando a cidade na voz de Elza Soares:
“façamos, vamos amar…”
Como se ainda fosse possível cantar afeto em meio ao colapso.
Como se o corpo fosse a última estrutura que não falha.
Se a voz do povo é a voz de Deus, Deus aqui não sussurra.
Ordena.
Chamam de degradação.
Mas há algo que persiste.
Algo que se levanta, mesmo quando tudo parece cair.
Talvez nada se refira à ruína.
Mas sobre o que permanece de pé enquanto a cidade goza da própria sobrevivência.
— Thiago Aquino, 2026