26/08/2026
AGOSTO, O MÊS EM QUE OS MONSTROS PARTIRAM: UMA DESPEDIDA PARA TIM CURRY, entre o medo, a memória, a comida e a luz. Por Reubens, Barão de Gourmandise.
Agosto nunca foi um mês de brincadeira.
No interior das raízes da minha família, as pessoas diziam isso quase como quem pronuncia uma sentença antiga, dessas que atravessam gerações sem precisar de explicação: agosto, mês do desgosto. Cresci ouvindo a frase com a naturalidade com que se aprende o nome dos santos, o caminho das chuvas ou a hora em que o sol começa a abandonar a serra. Certas palavras envelhecem dentro da gente antes mesmo que a gente descubra o que elas signif**am.
Este agosto, porém, resolveu levar a superstição a sério. No hospital onde faço hemodiálise, cinco pessoas morreram em sequência. Depois vieram outras perdas que pareciam atravessar a tela da televisão e alcançar a sala de casa: Laura Cardoso, Glória Menezes, Dolly Parton. E hoje, Tim Curry.
Agosto, desta vez, não parece apenas um mês. Parece uma porta que alguém abriu e esqueceu de fechar.
Tim Curry morreu aos 80 anos, depois de uma carreira longa, extraordinária e estranhamente difícil de separar das criaturas que criou. Desde o AVC que sofreu em 2012, ele precisou atravessar uma sucessão de limitações e complicações que poderiam ter encerrado a vida artística de muita gente. Ainda assim, continuou. Trabalhou com a voz, apareceu quando pôde, revisitou personagens, recebeu o carinho de quem nunca o esqueceu. Em 2024, ainda voltou ao cinema em *Stream*. Sua despedida chegou somente agora.
Eu nasci nos primeiros anos da década de 1980, numa época que, olhando para trás, parece ter sido inventada por alguém que acreditava que tudo era permitido. O mundo ainda tinha uma espécie de desordem encantadora. A televisão podia apresentar um monstro no meio da tarde. Uma locadora podia guardar, em suas prateleiras, filmes que pareciam proibidos apenas porque suas capas eram assustadoras. O cinema era uma festa eventual.
Eu morava numa serra do Ceará. Cinema, para mim, era coisa de férias, quando meu pai nos levava para a capital. O resto vinha pelas fitas alugadas nas locadoras, essas pequenas cavernas de plástico e celuloide que os mais jovens provavelmente conhecem apenas como uma espécie de arqueologia doméstica. Depois, quando a fita voltava para a locadora, o filme f**ava para trás, mas alguma coisa dele permanecia grudada em nós.
E também existia a Sessão da Tarde.
Foi por uma dessas portas que Tim Curry entrou na minha infância. Eu ainda não sabia o nome dele. Não sabia de onde vinha aquela voz. Não sabia que aquele rosto escondia um ator capaz de atravessar gêneros, palcos e décadas.
Eu só vi um monstro vermelho. Um monstro gigantesco, com chifres, dentes, olhos que pareciam conhecer coisas que eu não queria conhecer e um corpo que parecia ter sido arrancado de algum pesadelo medieval. Era Darkness, o Senhor da Escuridão do filme A Lenda*, de 1985, com o demonão sendo interpretado por Tim Curry.
Para uma criança criada no alto da serra cearense, aquilo não parecia maquiagem. Parecia uma criatura que havia encontrado uma maneira de entrar na televisão. E eu acreditei.
O Filme" A Lenda" era um conto de fadas vestido de pesadelo, com Tom Cruise ainda muito jovem no papel de Jack, o herói, e Curry ocupando o outro lado da história como uma presença demoníaca quase barroca. O desenho daquele rosto, os chifres, o vermelho impossível, tudo fazia parte de uma criatura tão exagerada que justamente por isso parecia real.
Eu me arrepiei inteiro.Mas não foi apenas o monstro que ficou comigo. Foi a mesa.
A cena do banquete me perturbou de uma maneira diferente. Lili, a princesa interpretada por Mia Sara, chega ao domínio de Darkness e encontra uma mesa que parece ter sido preparada pela própria fantasia. Pratos, frutas, taças, uma abundância quase obscena. Tudo é belo, mas alguma coisa naquela beleza está errada.
A comida é negra. A mesa parece oferecer fartura e ameaça ao mesmo tempo. Lili sente fome. E isso talvez seja uma das coisas que mais me impressionaram naquela sequência. O desejo começa pelo corpo antes de alcançar a consciência. Primeiro os olhos. Depois o estômago. Depois o medo.
Darkness quer que ela coma. Quer que ela aceite. Quer que a beleza da mesa seja suficiente para fazê-la esquecer o que está acontecendo ao redor. No roteiro, a mesa se enche misteriosamente de comida negra, e Lili, faminta, chega a apanhar uma maçã escura antes de perceber o perigo.
Eu não tinha idade para explicar nada daquilo. Também não precisava. Aquela mesa era bonita e triste. Era sedutora e terrível. Era um banquete que parecia prometer prazer enquanto escondia alguma coisa dentro dele.
Hoje, tantos anos depois, consigo enxergar aquilo de outra maneira. Naquela época, eu apenas sentia. Talvez seja esse o verdadeiro poder de certas imagens. Elas chegam antes das palavras. A explicação vem décadas depois, quando finalmente descobrimos que algumas cenas da infância estavam nos ensinando a olhar.
Depois vieram os anos 1990.
Eu já era rapazinho. Lia muito. Gostava de filmes de terror, gostava dos livros de terror, e Stephen King ocupava na minha imaginação aquele lugar reservado aos escritores que parecem conhecer corredores secretos da mente humana. Eu tinha lido *Carrie, a Estranha*. Conhecia aquele território. Mas nunca tinha lido *It, a Coisa*.
Então o cinema fez por mim aquilo que os livros ainda não tinham feito. Em 1990, Tim Curry apareceu como Pennywise. E, curiosamente, eu nunca tive medo de palhaços. Até então.
Pennywise não precisava de uma floresta escura, de uma casa abandonada ou de uma faca levantada no ar. Bastava sorrir. O sorriso já era a ameaça.
Mas, entre todas as imagens daquele filme, existe uma que ficou presa à minha memória por uma razão muito particular: a cena do restaurante chinês.
Os protagonistas, agora adultos, voltam a se reunir. Sentam-se diante de uma mesa de restaurante, pedem comida, conversam, tentam compreender o passado que voltou para buscá-los. É uma cena que deveria oferecer aquilo que uma refeição oferece desde sempre: uma pausa. Comida quente. Pessoas sentadas. Uma mesa entre o medo e a conversa.
Depois chegam os biscoitos da sorte. E o jantar termina. Ou deveria terminar. Os biscoitos começam a se romper sozinhos. Um depois do outro. E aquilo que deveria conter uma pequena mensagem de esperança passa a revelar coisas que nenhuma pessoa gostaria de encontrar dentro de uma massa crocante. Sangue. Olhos. Dentes. Insetos. Uma criatura grotesca. O cotidiano se parte em pequenos pedaços.
É uma das coisas que mais me fascinam no horror: ele não precisa destruir a mesa. Basta contaminar aquilo que deveria ser seguro. A comida, que deveria acalmar, passa a ameaçar.
O biscoito, que deveria trazer uma mensagem para o futuro, passa a trazer o passado de volta. A mesa, que deveria reunir pessoas, torna-se um palco. E Pennywise está presente mesmo quando não está sentado à mesa.
Aquela sequência foi concebida justamente para produzir esse tipo de desconforto, com os biscoitos se transformando diante dos personagens em manifestações grotescas.
Eu me lembro do impacto que aquele tipo de televisão provocava. Filmes de terror eram assuntos de conversa. Gente comentava na rua. Alguns diziam que aquilo não era filme para criança. Pais mandavam filhos sair da sala.
A televisão parecia guardar certos monstros para depois que escurecesse. Eu, ao contrário, f**ava. Eu queria ver. Talvez porque o medo, quando ainda somos jovens, tenha uma espécie de sabor proibido. A gente sabe que deveria fugir, mas continua olhando.
Hoje o horror já não me conquista da mesma maneira. Mas aquela cena continua intacta. E isso talvez seja o mais curioso. Não me lembro apenas de Pennywise. Lembro da comida. Lembro da mesa. Lembro do instante em que algo destinado a trazer sorte se transforma em uma ameaça.
Foi assim que Tim Curry, sem que eu percebesse, começou a estabelecer dentro de mim uma relação estranha entre horror e comida.
E então veio o terceiro personagem. O mais importante. O mais escandaloso. O mais alegre. O mais impossível de esquecer: Frank-N-Furter.
Quando penso nele, uma música começa dentro da cabeça., é *Sweet Transvestite.* Ainda hoje consigo cantar a letra.
O filme era *The Rocky Horror Picture Show*, e ele entrou na minha vida como uma explosão de cor, música, maquiagem, pernas, salto alto, gargalhadas, sexualidade e completa ausência de vergonha. Tim Curry aparecia como Dr. Frank-N-Furter, um cientista alienígena meio vampiro da Transylvania Tr*******al vestido com lingerie, maquiagem pesada, salto e uma segurança que parecia dizer ao mundo inteiro que nenhuma regra merecia ser levada tão a sério.
Naquela época, eu não entendia tudo. E talvez tenha sido melhor assim. Eu não percebia todas as alusões se***is. Não compreendia ainda toda a dimensão de transgressão daquele personagem.
Eu via a alegria. Via a música. Via a loucura. Via aquelas pessoas reunidas num castelo como se o mundo lá fora não tivesse importância alguma.
Muito tempo depois, compreendi que Frank-N-Furter tinha chegado a um cinema que ainda não estava preparado para ele. E que, por isso mesmo, ele não envelheceu. Virou culto. Virou espetáculo. Virou tradição. Virou uma espécie de lugar para onde gerações diferentes continuam voltando quando precisam lembrar que o corpo também pode ser uma forma de liberdade.
E, como se Tim Curry não tivesse feito o suficiente para ligar comida e terror na minha memória, Frank-N-Furter ainda guardava uma última surpresa.
O jantar. Uma mesa novamente. Comida novamente. Mas agora a mesa está no castelo de Frank.
Os convidados se sentam. O jantar é servido. A carne chega à mesa. E então o horror se revela: aquilo que parecia uma refeição festiva está ligado aos restos de Eddie, personagem interpretado por Meat Loaf. O filme transforma a própria ideia de jantar em uma piada macabra, uma provocação e uma paródia dos banquetes tradicionais do cinema de horror.
Existe ainda uma brincadeira escondida no próprio nome. Frank-N-Furter seria Frankfurter, uma específ**a salsicha alemã.
A comida escondida dentro do nome do homem que transformou o jantar em espetáculo. Era mais uma das pequenas perversidades geniais de *Rocky Horror*: tudo pode ser uma coisa e outra ao mesmo tempo.
Uma refeição pode ser uma piada.Um jantar pode ser um pesadelo. Um homem pode ser uma mulher, um cientista, um alienígena, um sedutor, um monstro, uma estrela. Um ator pode desaparecer completamente dentro de um personagem e, ainda assim, deixar mais de si mesmo do que muitos intérpretes deixam quando aparecem sem máscara.
Nas sessões interativas de The Rocky Horror Picture Show,, o público deixou de ser apenas espectador há muito tempo. As pessoas passaram a levar objetos para participar fisicamente daquilo que acontecia na tela. Quando Frank-N-Furter ergue uma torrada durante o brinde, por exemplo, a plateia responde lançando torradas de verdade em direção à tela. Em outros momentos, arroz, papel higiênico e cartas também atravessam o cinema, cada objeto associado a uma determinada cena. A projeção deixa de ser uma coisa distante e passa a acontecer também entre as poltronas, nas mãos e nas gargalhadas de quem assiste.
Existe algo deliciosamente absurdo nisso: Tim Curry oferece uma torrada a seus convidados na tela e, décadas depois, multidões inteiras respondem atirando torradas de volta para ele. A comida atravessa a distância entre o filme e a plateia, como se aquele jantar nunca tivesse terminado completamente.
Eu só fui compreender parte disso depois. Na época, eu assistia. Eu ria. Eu cantava. Eu olhava para Tim Curry e não sabia que estava diante de uma das presenças mais singulares que o cinema havia colocado diante de mim.
O que eu sabia era muito mais simples. Eu gostava dele. Gostava do monstro vermelho. Gostava do palhaço. Gostava daquele homem de salto alto que cantava como se tivesse descoberto um segredo que o restante do mundo ainda não conhecia.
Três personagens. Três monstros. Três mesas. Três maneiras de fazer a comida aparecer quando o mundo começa a f**ar estranho.
Em *A Lenda*, a comida seduz. Em *It*, a comida assusta. Em *Rocky Horror*, a comida ri da própria morte.
Eu ainda não sabia, mas Tim Curry estava me ensinando uma coisa que só compreenderia muito mais tarde: o horror raramente entra pela porta anunciando que é horror.
Às vezes ele chega vestido para um banquete. Às vezes vem escondido dentro de um biscoito da sorte. Às vezes senta-se à mesa, ajeita a maquiagem, ergue uma taça e começa a cantar.
Por isso que, quando soube hoje que Tim Curry havia morrido, eu não pensei primeiro na morte.
Pensei em uma mesa. Depois em outra. Depois em outra. E, entre elas, um rosto vermelho diabolico, um sorriso de palhaço e um homem de salto alto cantando *Sweet Transvestite*.
Foi assim que ele voltou. Não como morto. Como memória.
ANTES DOS MONSTROS, A COZINHA
Fui ler mais sobre ele e encontrei mais uma vez a cozinha. Aos doze anos, depois da morte do pai, Tim Curry precisou aprender a preparar o próprio café da manhã. A mãe passou a trabalhar, e aquele menino que ainda estava descobrindo o mundo precisou descobrir também como cuidar da própria fome. O que começou como necessidade acabou se tornando uma paixão pela cozinha que o acompanhou durante toda a vida.
Essa imagem me persegue desde que a encontrei.
Não consigo evitar que ela se sobreponha às outras. É que oficialmente, eu memso comecei a cozinhar quando tinha doze anos, foi um desastre, mas desde então nunca parei. E ele também não.
Antes de Tim Curry ser o homem de voz profunda que faria o público estremecer, antes de se tornar Frank-N-Furter, Darkness ou Pennywise, antes dos aplausos, dos figurinos e das multidões, existiu um garoto diante de uma manhã qualquer, provavelmente ainda sonolento, tendo de descobrir sozinho o que colocar numa frigideira, numa panela ou num prato. A vida tinha acabado de lhe tirar o pai e, como tantas vezes acontece, não interrompeu o relógio para que a tristeza pudesse ser vivida com calma. O dia seguinte chegou. A fome também.
Talvez uma pessoa possa passar a vida inteira sem perceber a importância de uma primeira refeição. Um café, uma torrada, ovos, qualquer coisa capaz de atravessar o vazio entre o despertar e o resto do dia. Para aquele garoto, porém, cozinhar não nasceu como passatempo sofisticado. Nasceu no lugar mais elementar de todos, aquele em que o afeto e a necessidade às vezes usam a mesma panela.
E gosto de pensar nisso sem transformar a lembrança numa fábula sobre superação. A vida de Tim Curry foi muito mais complexa do que uma história pronta para ensinar alguma lição. O que me interessa é a delicadeza da coincidência: o homem que passaria décadas cercado de banquetes imaginários tinha aprendido, muito cedo, a fazer uma refeição para si mesmo.
Depois, a comida continuou aparecendo ao redor dele, como se soubesse o caminho.
Em *Muppet Treasure Island*, ele interpretou Long John Silver, um pirata que se apresenta inicialmente como cozinheiro. A escolha parece uma dessas brincadeiras que o cinema oferece sem pedir que ninguém perceba. Tim Curry, cuja relação com a cozinha começara ainda na infância, surgia agora vestido de cozinheiro em uma aventura de piratas e marionetes. A imagem tem uma leveza quase perfeita: o menino que um dia aprendeu a preparar seu café da manhã acabaria colocando um avental para atravessar uma ilha de tesouros.
Durante aquela produção, Curry também contou uma história que mostra como seu humor podia encontrar a comida pelo caminho. Ao recordar seu encontro com Miloš Forman, falou do jantar na casa de Peter Shaffer, onde o dramaturgo preparou cordeiro assado. Forman gostou do prato e brincou que poderia convidá-lo para sua casa e preparar um cordeiro à maneira tcheca, preso a um longo espeto e levado diretamente ao fogo. O jantar prometido nunca aconteceu, mas a imagem ficou na memória do ator, inclusive pela suspeita de que o cordeiro talvez chegasse à mesa um pouco mais cru do que deveria.
Eu gosto dessa história justamente porque ela não parece importante. Não é uma grande revelação. Não muda a história do cinema. Não explica Tim Curry.
É apenas um jantar lembrado muitos anos depois: uma casa, um prato de cordeiro, um diretor famoso fazendo uma promessa culinária, uma piada sobre a carne e uma noite que continuou existindo na memória de quem estava sentado à mesa.
Talvez seja nisso que uma vida verdadeira se diferencie de uma biografia. A biografia costuma guardar os grandes acontecimentos. A memória, por sua vez, às vezes prefere o cheiro de uma comida.
E quanto mais penso nisso, mais curiosa se torna a presença dos alimentos na trajetória daquele ator que conheci justamente através do horror.
Em * A Lenda*, a mesa de Darkness oferecia fartura como sedução. Em *It*, os biscoitos da sorte transformavam uma refeição aparentemente comum numa porta para o pesadelo. Em *The Rocky Horror Picture Show*, Frank-N-Furter fazia do jantar uma representação grotesca, misturando festa, desejo, humor e morte. A comida nunca permanecia completamente inocente quando Tim Curry estava por perto.
Só que o homem por trás daqueles personagens conhecia outra cozinha. Uma cozinha sem maquiagem. Sem efeitos especiais. Sem monstros escondidos debaixo da mesa.
Uma cozinha em que alguém simplesmente precisa comer. Essa diferença me parece agora quase comovente.
Nós conhecemos Tim Curry pelos excessos. A voz que se alongava numa nota, o corpo de Frank-N-Furter ocupando a cena inteira, o sorriso impossível de Pennywise, os chifres de Darkness, a maneira como seus personagens pareciam sempre saber alguma coisa que o restante das pessoas ignorava. Mesmo quando interpretava homens aparentemente comuns, ele carregava uma espécie de eletricidade. Era como se qualquer sala pudesse se transformar em palco no instante em que ele entrasse.
A vida privada, entretanto, era outra coisa. Curry preservava ferozmente sua intimidade. Em entrevistas, falava de trabalho, memória, amizades, teatro, música e das próprias experiências, mas não cultivava aquela necessidade tão contemporânea de transformar cada detalhe doméstico em espetáculo. Quando conversou com *The New Yorker* em 2025, já aos 79 anos, estava em sua casa em Los Angeles, cercado pelo jardim que cultivava, falando sobre sua trajetória e sobre as lembranças que reuniu em *Vagabond*.
Essa imagem me agrada. Não o monstro. Não o palhaço. Não o cientista alienígena. O homem em casa. Por isso que a história do café da manhã tenha me atingido tanto.
Depois de tantos anos interpretando personagens que pareciam nascer do excesso, descubro que uma parte essencial de sua própria história começou na simplicidade de uma refeição.
A criança precisou aprender a cozinhar. O adulto aprendeu a representar. O mundo aprendeu a reconhecê-lo. E nós, espectadores, recebemos dele aquilo que um grande artista sabe oferecer: uma porção de si transformada em outra coisa, irreconhecível e, ainda assim, profundamente humana.
Não sei o que Tim Curry costumava preparar quando estava sozinho em casa. Não encontrei uma lista confiável de pratos prediletos que me permita dizer qual era seu sabor favorito, e prefiro não preencher esse silêncio com invenções. Uma homenagem perde sua beleza quando começa a fabricar intimidades que a pessoa nunca ofereceu.
Prefiro f**ar com o que sabemos. Um menino de doze anos. Uma casa que tinha acabado de conhecer o luto. Uma mãe que precisou sair para trabalhar. Uma cozinha. A primeira refeição do dia. E a descoberta de que, quando a vida muda de repente, ainda precisamos acender o fogo.
É uma imagem que me faz pensar no próprio ofício de Tim Curry. Um ator também trabalha assim. Recebe alguma coisa ainda sem forma, coloca aquilo sob o calor da imaginação e espera. Acrescenta voz, corpo, gesto, silêncio, ironia, desejo. Prova. Corrige. Queima um pouco. Recomeça. Até que o personagem esteja pronto para ser servido ao mundo.
Assim, algumas de suas criações tenham f**ado tanto tempo na nossa memória. Elas tinham sabor. Darkness tinha o sabor de uma tentação proibida. Pennywise, o gosto metálico do medo. Frank-N-Furter, uma mistura impossível de açúcar, pimenta, perfume, desejo e gargalhada. E Tim Curry, escondido atrás deles, talvez guardasse uma memória muito mais simples: a de uma manhã distante em que aprendeu a preparar alguma coisa para continuar o dia.
Quando penso agora na morte dele, essa lembrança muda a temperatura da notícia. Porque os monstros permanecem. O vermelho de Darkness permanece. O sorriso de Pennywise permanece. A voz de Frank-N-Furter continua cantando dentro de quem o ouviu. Mas o homem que aprendeu a cozinhar o próprio café da manhã também merece uma cadeira à mesa.
Não diante de uma plateia. Não sob refletores. Não caracterizado. Apenas Tim. E é nessa mesa, muito mais silenciosa do que aquelas que seus personagens frequentaram, que eu gostaria de deixar a última homenagem.
Uma receita. Não uma receita que eu possa afirmar que ele amava, porque não sei. Uma receita que possa ser preparada por nós, em algum lugar deste agosto pesado, enquanto a memória ainda estiver quente.
Uma pequena coisa feita com as mãos. Algo que comece no fogo e termine na mesa. Porque talvez a maneira mais bonita de despedir-se de alguém que passou a vida alimentando a imaginação dos outros seja preparar, pela primeira vez, alguma coisa para ele.
Mesmo sabendo que ele não poderá provar. Mesmo sabendo que a cadeira permanecerá vazia.
Ainda assim, a mesa estará posta. E, por alguns minutos, Tim Curry estará outra vez conosco.
EPÍLOGO: DEPOIS QUE A CORTINA FECHA
Certas despedidas chegam silenciosas, quase humildes, como a luz que permanece acesa num teatro depois que o último espectador vai embora. O palco já está vazio, as cadeiras começam a se recolher para dentro da sombra, alguém apaga uma fileira de lâmpadas e, por alguns segundos, aquele lugar parece não guardar lembrança alguma. Então percebemos que a madeira ainda conserva passos.
Talvez seja isso que um grande artista faça conosco. Não nos entrega somente personagens; modif**a discretamente o lugar onde nossa imaginação mora. Depois dele, certas portas parecem mais altas, certas canções carregam outra temperatura, certas noites ganham um brilho que não estava ali antes.
Tim Curry conhecia esse território como poucos. Ele compreendia que o extraordinário não precisa pedir licença para entrar. Pode surgir de uma voz, de um olhar, de uma sobrancelha erguida no instante certo. Pode vestir vermelho, preto, seda, lantejoulas ou apenas um sorriso. Pode assustar uma criança e, muitos anos depois, fazer o adulto compreender que o medo também pode ser uma forma de encantamento.
O curioso é que nenhum desses personagens precisa morrer quando o ator parte. Eles se tornam pequenos habitantes de nós.
Voltam sem serem chamados. Aparecem numa música, numa fotografia antiga, numa noite de outubro, numa televisão acesa quando ninguém mais está assistindo. Um gesto conhecido pode surgir de repente no meio de uma conversa. Uma voz pode atravessar décadas sem perder a textura.
É assim que a arte desafia o tempo. Ela não impede a morte. Faz algo mais estranho: impede que a presença termine completamente.
Por isso, quando a cortina finalmente desce, talvez não devamos olhar apenas para o palco vazio. Convém olhar para a plateia.
Ali estão aqueles que foram transformados. Ali está a criança que um dia sentiu medo. O adolescente que descobriu novas formas de imaginar. O adulto que voltou às mesmas cenas e percebeu nelas coisas que seus olhos mais jovens ainda não sabiam nomear. E ali estamos nós, carregando pequenas partículas de tudo aquilo que um artista deixou pelo caminho.
Agosto pode continuar sendo agosto. Pode trazer suas notícias difíceis, suas ausências, suas cadeiras vazias. Não precisamos fingir que a perda não dói. A beleza nunca foi uma promessa de que nada terminaria.
A beleza está em outra coisa.
Naquilo que continua iluminado depois que a fonte da luz desaparece.
Tim Curry foi embora. Mas o palco não ficou escuro. Alguma lâmpada permanece acesa. Talvez seja aquela que ilumina um velho filme. Talvez venha de uma televisão esquecida numa tarde qualquer. Talvez esteja no rosto de alguém que sorri ao reconhecer uma música. Talvez seja simplesmente a imaginação de uma pessoa que, muitos anos depois, ainda consegue olhar para uma tela e sentir novamente aquele primeiro espanto.
E então compreendemos que certos artistas não nos abandonam. Eles apenas deixam de estar do outro lado da tela. Passam para dentro dela.
E de dentro dela continuam nos olhando, eternamente jovens, extravagantes, impossíveis, magníficos.
Como se a última coisa que Tim Curry tivesse aprendido a nos dizer fosse também a mais simples: a luz não precisa vencer a escuridão. Basta permanecer acesa.
CORDEIRO ASSADO PARA TIM CURRY
A escolha do cordeiro não é casual. Tim Curry contou certa vez sobre um jantar na casa do dramaturgo Peter Shaffer, onde foi servido cordeiro assado. Miloš Forman estava à mesa e brincou que um dia prepararia para Curry uma versão tcheca, assada diretamente sobre o fogo.
Não sabemos se aquele segundo cordeiro chegou à mesa. Sabemos que o primeiro ficou na memória.
Então, para esta despedida, preparo outro.
INGREDIENTES
Para o cordeiro
* 1,5 kg de perna de cordeiro
* 5 dentes de alho
* 3 ramos de alecrim
* 3 colheres (sopa) de azeite
* 1 colher (sopa) de mostarda Dijon
* Raspas de 1 limão
* Sal e pimenta-do-reino
Para o molho de hortelã
* 1 xícara de folhas de hortelã
* 100 ml de vinagre de vinho branco
* 2 colheres (sopa) de açúcar
* 3 colheres (sopa) de água quente
* 1 pitada de sal
Para acompanhar
* 1 kg de batatas
* Azeite
* Sal
* Alecrim
PREPARO: Retire o cordeiro da geladeira cerca de uma hora antes. Faça pequenos cortes na superfície e introduza neles lâminas de alho e folhas de alecrim. Misture o azeite, a mostarda, as raspas de limão, sal e pimenta e espalhe sobre a carne. Leve ao forno preaquecido a **220 °C por 20 minutos**. Reduza para **180 °C** e asse até atingir o ponto desejado. Para uma carne rosada e suculenta, retire quando o centro estiver entre **58 e 60 °C**. Deixe descansar por 20 minutos antes de fatiar.
Para as batatas, cozinhe-as previamente por 7 a 10 minutos, escorra, tempere com azeite, sal e alecrim e asse até f**arem douradas e crocantes.
Misture a hortelã picada com o vinagre, o açúcar, a água quente e o sal. Aguarde 10 minutos antes de servir.
Fatie o cordeiro, cerque-o com as batatas e coloque o molho de hortelã ao lado.