02/05/2024
Ao enfrentarmos o câncer, temos a difícil tarefa de contabilizar as perdas e a sabedoria de reconhecer os ganhos
“O câncer me tirou tudo!”. Não raras vezes, evitei e evitei frases assim cuja minha vida foi atingida por essa cruel enfermidade. De fato, enfrentar o câncer, assim como outras doenças tão graves quanto essa, é uma verdadeira luta.
Mais do que expressar um pensamento, trago neste texto, um breve relato do que eu e minha família viveu, quando nos deparamos com o diagnóstico dado a mim: câncer de nasofaringe.
Realmente, as “perdas” já começam com a chegada da notícia. Perda de rumo, de certezas e convicções. Surgem medos e inseguranças, conflitos e questionamentos. O tempo para e a vida passa tão depressa na cabeça, como um filme. Começa, então, uma rotina de exames, de idas e vindas a médicos, laboratórios, clínicas e hospitais. Muitas vezes, adentra-se, pela primeira vez, neste universo obscuro e distante do cotidiano. Começa uma corrida contra o tempo. ( isso me cansou tanto). Agora irei falar sobre as perdas: Perde-se o controle da vida
A vida toma outra direção e passa a ser habitada por pessoas e locais diferentes. Surge um novo vocabulário, complexo e desconhecido, de nomes grandes e esquisitos, laudos, biópsias e resultados. Perdem-se os dias passados dentro de um hospital (onde passei o meu reveillon 2023/2024), Tive também fila de espera, nas idas e vindas dos papéis, autorizações, agendamentos. Sim, perde-se a autonomia, o “ir e vir” livremente (você acostumado a ter autonomia, de uma hora pra outra você perde totalmente). Perde-se um dia de trabalho ou muitos dias, perde-se a capacidade de trabalhar e até mesmo o emprego. Perde-se o controle da vida e do corpo. Perde-se a noção do tempo e a certeza de quanto tempo ainda lhe resta. Perde-se o apreço e a fama. Vão-se embora os conhecidos e faz doer a perda dos que eram “amigos”.
Perde-se as roupas que já não cabem, perde-se o apetite, o cabelo, a pele corada e a aparência saudável. Perde-se a mama, o esôfago ou o útero, perde-se a voz. Mas, afinal, perde-se realmente tudo? Não, não e não!