24/05/2026
Às vezes,
na casa da penumbra,
durante a madrugada,
os objetos
parecem barcos imóveis
dentro da neblina azul.
A chaleira ferve lentamente.
Escutamos uma canção
encantada a terminar no rádio.
Talvez seja uma versão das nossas
mais recentes palavras,
trocadas sob o manto de veludo.
O v***r sobe
como um espírito doméstico,
conhecedor da penumbra.
Sobre a mesa, um livro
permanece aberto
numa página que fala
de gatos e luas próximas.
Lá fora,
o mundo silencia sob a chuva morna.
As bicicletas adormecem,
e as máquinas de venda automática
iluminam ruas vazias
com a sua luminosidade
azul e silente.
Na casa da penumbra,
as horas movem-se devagar,
como discos de vinil girando
num quarto quase escuro.
Nós assim permanecemos,
entre o sonho e a vigília,
escutando a respiração do universo
através das cortinas de linho.
Às vezes,
uma mulher jovem
atravessa o jardim lunar,
carregando um guarda-chuva transparente.
Não fala,
mas o aroma do seu cabelo
mistura-se com o cheiro do café
e das páginas envelhecidas,
como se ambos pertencessem
ao mesmo veludo.
Então percebemos
que a melancolia também pode ser
luminosa.
Que existe uma espécie de eternidade
escondida nas pequenas coisas:
um gato a dormir sobre o sofá,
uma cafeteira ao lume,
água silenciosa
junto às raízes das árvores.
Talvez seja isso
que os sonhos da casa da penumbra
tentam dizer
quando abrem devagar
as suas portas invisíveis.