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Pastelaria Versailles — Onde Lisboa se senta à mesaHá lugares em Lisboa onde não entramos simplesmente para tomar um caf...
10/08/2026

Pastelaria Versailles — Onde Lisboa se senta à mesa

Há lugares em Lisboa onde não entramos simplesmente para tomar um café.

Entramos para atravessar uma época.

A Pastelaria Versailles, na Avenida da República, é um desses lugares.

A fachada pode parecer apenas mais uma porta aberta para uma das grandes avenidas da cidade. Mas, depois de atravessada, alguma coisa muda.

O ruído de Lisboa f**a do lado de fora.

Lá dentro existem espelhos, madeira, mármore, mesas pequenas e uma luz que parece ter sido deixada ali há muito tempo.

A Versailles abriu as portas em 1922, fundada por Salvador Antunes, um pasteleiro português que tinha trabalhado em França. O nome não surgiu por acaso: pretendia evocar o requinte e a tradição da pastelaria francesa.

Mas a Versailles acabou por adquirir uma identidade profundamente lisboeta.

Durante mais de um século, atravessou mudanças políticas, sociais e urbanas. Lisboa mudou à sua volta. Os automóveis multiplicaram-se, os eléctricos mudaram de percurso, os prédios envelheceram, as pessoas foram embora e outras chegaram.

A Versailles permaneceu.

Talvez seja esse o verdadeiro luxo de certos lugares antigos.

Não precisam de se reinventar constantemente.

Limitam-se a continuar.

No interior, a decoração conserva o gosto de outra época. Os espelhos ampliam o espaço, os elementos decorativos e os candeeiros dão-lhe uma atmosfera quase teatral, e as mesas parecem pequenas ilhas onde diferentes histórias se encontram.

É fácil imaginar alguém sentado junto à janela há cinquenta ou sessenta anos.

Um jornal aberto.

Uma chávena de café.

Um bolo num prato.

Uma carta que ainda não foi enviada.

Talvez nunca tenha existido essa pessoa.

Mas os lugares antigos têm esse estranho poder: fazem-nos imaginar vidas que poderiam ter acontecido.

E talvez seja essa uma das formas mais discretas da memória.

Não aquilo de que temos certeza.

Mas aquilo que conseguimos imaginar.

Na Versailles, a pastelaria tradicional é parte essencial da experiência. Há bolos, doces, salgados, cafés e outras especialidades que pertencem à longa história da casa.

Entre as suas criações encontra-se o famoso Pastel de Nata Versailles, mas também uma variedade de bolos e doces tradicionais que continuam a fazer parte do balcão.

O balcão, aliás, merece atenção.

Há qualquer coisa de quase hipnótico numa pastelaria antiga.

As pessoas entram, escolhem um bolo, pedem um café, sentam-se.

Durante alguns minutos, o mundo parece reduzir-se a coisas muito simples.

A colher toca na chávena.

Uma porta abre-se.

Alguém conversa numa mesa próxima.

O empregado atravessa a sala.

Lá fora, Lisboa continua a correr.

Aqui dentro, o tempo parece andar mais devagar.

Talvez seja por isso que a Versailles tenha sobrevivido a tantas mudanças.

Não é apenas uma pastelaria.

É uma espécie de cenário vivo da cidade.

Um lugar onde a gastronomia, a arquitectura e a memória se encontram.

E existe ainda uma coisa curiosa.

Quando nos sentamos numa pastelaria histórica, nunca sabemos exactamente quem esteve ali antes de nós.

Pode ter sido um escritor.

Um estudante.

Um político.

Uma actriz.

Um casal que se encontrou pela primeira vez.

Alguém que esperava uma notícia.

Alguém que precisava simplesmente de estar sozinho durante meia hora.

A mesa não guarda nomes.

Guarda apenas o tempo.

Talvez seja essa a verdadeira história da Versailles.

Não apenas a história de quem a fundou, nem a lista dos seus doces, nem a data gravada nos livros.

É a história das milhares de pessoas que entraram pela porta durante mais de cem anos e, por alguns minutos, fizeram daquele lugar parte da sua vida.

Quando saímos, a Avenida da República parece novamente demasiado rápida.

A Fragata e o Submarino — Duas formas de atravessar o TejoEm Cacilhas, junto ao Tejo, há um lugar onde o tempo parece te...
10/08/2026

A Fragata e o Submarino — Duas formas de atravessar o Tejo

Em Cacilhas, junto ao Tejo, há um lugar onde o tempo parece ter parado de uma maneira particularmente estranha.

Ali estão dois navios que pertencem a épocas quase opostas.

A Fragata D. Fernando II e Glória veio de um mundo de velas, madeira e longas viagens marítimas. O Submarino Barracuda pertence a uma época de aço, motores e profundidades silenciosas.

Um conheceu o oceano olhando para o céu.

O outro conheceu-o desaparecendo debaixo dele.

E talvez seja por isso que, quando os vemos lado a lado, pareçam menos dois museus e mais duas portas para tempos diferentes.

A D. Fernando II e Glória foi construída no Estaleiro Real de Damão, entre 1832 e 1845, e lançada à água em 22 de outubro de 1843. Foi batizada em homenagem a D. Fernando II, marido da rainha D. Maria II, e à Nossa Senhora da Glória, particularmente venerada em Goa. Foi o último navio à vela da Marinha Portuguesa e a última nau da Carreira da Índia.

Durante décadas transportou pessoas, mercadorias e tropas entre diferentes territórios do império português. Percorreu mais de 100 mil milhas náuticas — uma distância equivalente a cerca de cinco voltas ao mundo.

Depois, o seu destino mudou.

Deixou de ser apenas um navio que atravessava oceanos e tornou-se escola, navio-escola, espaço de aprendizagem e, mais tarde, instituição de acolhimento de jovens.

Em 1963, um incêndio interrompeu a sua história.

A velha fragata ficou parcialmente submersa no Tejo.

Durante quase três décadas permaneceu ali, como se o rio tivesse decidido guardá-la.

Só em 1992 começou o grande processo de recuperação. O restauro prolongou-se até 1998, ano em que a fragata voltou a ser apresentada ao público. Hoje encontra-se em Cacilhas, transformada em navio-museu.

É difícil não pensar que existe qualquer coisa de misterioso numa embarcação que passou anos dentro do próprio rio e que, depois de quase desaparecer, voltou à superfície.

Como alguém que regressasse de um lugar onde ninguém sabe exactamente o que existe.

Ao lado dela está o Submarino Barracuda.

A diferença é imediata.

A fragata parece querer subir.

O submarino parece querer descer.

O NRP Barracuda entrou ao serviço da Marinha Portuguesa em 4 de maio de 1968. Durante 42 anos participou em missões nacionais e internacionais, navegando por zonas como as Ilhas Britânicas, as Canárias e o Mediterrâneo Ocidental. Terminou a sua última missão em 2010.

Durante esse período, a sua vida acontecia longe dos olhos de quem estava em terra.

Dentro de um submarino, o mundo desaparece.

Não há horizonte.

Não há céu.

Não há a linha distante onde o mar acaba e começa outra coisa.

Há apenas metal, instrumentos, corredores estreitos e a água do outro lado das paredes.

Talvez seja essa a parte mais estranha de visitar o Barracuda em Cacilhas.

Entramos num objecto que foi concebido para desaparecer.

Um submarino não é simplesmente um barco que navega.

É uma máquina construída para permanecer escondida.

E agora está ali, imóvel, junto ao Tejo, aberto aos visitantes.

Como se tivesse finalmente decidido contar o que viu.

A sua musealização transformou-o num dos elementos do Núcleo Museológico da Marinha em Cacilhas, juntamente com a D. Fernando II e Glória. O Barracuda foi inaugurado como navio-museu em maio de 2024.

Há qualquer coisa de quase impossível nesta proximidade.

A fragata e o submarino estão separados por pouco espaço, mas por mais de um século de história naval.

Num deles, imaginamos marinheiros subindo ao convés para procurar o vento.

No outro, imaginamos homens fechados dentro do aço, seguindo instrumentos enquanto o oceano escurecia à sua volta.

Um dependia das velas.

O outro, da tecnologia.

Um via as estrelas.

O outro precisava de confiar nos instrumentos para saber onde estava.

E ambos conheciam a mesma coisa:

o desconhecido.

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