10/08/2026
A Fragata e o Submarino — Duas formas de atravessar o Tejo
Em Cacilhas, junto ao Tejo, há um lugar onde o tempo parece ter parado de uma maneira particularmente estranha.
Ali estão dois navios que pertencem a épocas quase opostas.
A Fragata D. Fernando II e Glória veio de um mundo de velas, madeira e longas viagens marítimas. O Submarino Barracuda pertence a uma época de aço, motores e profundidades silenciosas.
Um conheceu o oceano olhando para o céu.
O outro conheceu-o desaparecendo debaixo dele.
E talvez seja por isso que, quando os vemos lado a lado, pareçam menos dois museus e mais duas portas para tempos diferentes.
A D. Fernando II e Glória foi construída no Estaleiro Real de Damão, entre 1832 e 1845, e lançada à água em 22 de outubro de 1843. Foi batizada em homenagem a D. Fernando II, marido da rainha D. Maria II, e à Nossa Senhora da Glória, particularmente venerada em Goa. Foi o último navio à vela da Marinha Portuguesa e a última nau da Carreira da Índia.
Durante décadas transportou pessoas, mercadorias e tropas entre diferentes territórios do império português. Percorreu mais de 100 mil milhas náuticas — uma distância equivalente a cerca de cinco voltas ao mundo.
Depois, o seu destino mudou.
Deixou de ser apenas um navio que atravessava oceanos e tornou-se escola, navio-escola, espaço de aprendizagem e, mais tarde, instituição de acolhimento de jovens.
Em 1963, um incêndio interrompeu a sua história.
A velha fragata ficou parcialmente submersa no Tejo.
Durante quase três décadas permaneceu ali, como se o rio tivesse decidido guardá-la.
Só em 1992 começou o grande processo de recuperação. O restauro prolongou-se até 1998, ano em que a fragata voltou a ser apresentada ao público. Hoje encontra-se em Cacilhas, transformada em navio-museu.
É difícil não pensar que existe qualquer coisa de misterioso numa embarcação que passou anos dentro do próprio rio e que, depois de quase desaparecer, voltou à superfície.
Como alguém que regressasse de um lugar onde ninguém sabe exactamente o que existe.
Ao lado dela está o Submarino Barracuda.
A diferença é imediata.
A fragata parece querer subir.
O submarino parece querer descer.
O NRP Barracuda entrou ao serviço da Marinha Portuguesa em 4 de maio de 1968. Durante 42 anos participou em missões nacionais e internacionais, navegando por zonas como as Ilhas Britânicas, as Canárias e o Mediterrâneo Ocidental. Terminou a sua última missão em 2010.
Durante esse período, a sua vida acontecia longe dos olhos de quem estava em terra.
Dentro de um submarino, o mundo desaparece.
Não há horizonte.
Não há céu.
Não há a linha distante onde o mar acaba e começa outra coisa.
Há apenas metal, instrumentos, corredores estreitos e a água do outro lado das paredes.
Talvez seja essa a parte mais estranha de visitar o Barracuda em Cacilhas.
Entramos num objecto que foi concebido para desaparecer.
Um submarino não é simplesmente um barco que navega.
É uma máquina construída para permanecer escondida.
E agora está ali, imóvel, junto ao Tejo, aberto aos visitantes.
Como se tivesse finalmente decidido contar o que viu.
A sua musealização transformou-o num dos elementos do Núcleo Museológico da Marinha em Cacilhas, juntamente com a D. Fernando II e Glória. O Barracuda foi inaugurado como navio-museu em maio de 2024.
Há qualquer coisa de quase impossível nesta proximidade.
A fragata e o submarino estão separados por pouco espaço, mas por mais de um século de história naval.
Num deles, imaginamos marinheiros subindo ao convés para procurar o vento.
No outro, imaginamos homens fechados dentro do aço, seguindo instrumentos enquanto o oceano escurecia à sua volta.
Um dependia das velas.
O outro, da tecnologia.
Um via as estrelas.
O outro precisava de confiar nos instrumentos para saber onde estava.
E ambos conheciam a mesma coisa:
o desconhecido.