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09/09/2026
18/03/2026

Princesa dos Egos

Pobre princesa da solidão refugiada
no castelo uivante dos sonhos
ela por muitos admirada
mas apenas um príncipe lhe abre os olhos

Ela em trapos se vestia
mas d'alma era rica e retumbante
e fronte ao espelho se despia
pro processo divino e desgastante

Adormecido seu corpo tão belo
ancião desejo e velho
de acariciar-lo e sentir-lo
pro processo divino e desgastante

Encontra-se posta ao caminho
viu que não seguia nada(ninguém)
ela era quem se procurava, no ninho
-de sua cama, para amar nada(ninguém)

Seu companheiro com semblante esforçado
fazia gestos de cão no cio
e ao estéreo gozo da caça, caçado
se afunilava como para o mar, o rio

- Oh escravo de meu prazer!
- oh condutor de minha alegria!
pois assim vivia a dizer
assim, de vez enquanto ria

A princesa que carregara sua cruz
abusava de seu príncipe dançando com a valsa
embora em meio à tanta luz
num gesto mor de escuridão...se realça

Os frutos vieram em seu corpo signo
e grávida de horrores e ilusão
gargalhava de lágrimas num apogeu sínico
com um punhal traiçoeiro fincado no coração

Seu príncipe de leal companheiro
vem agora ser o comediante menino
palhaço de um caminho longo(estradeiro)
de versos crônicos, apressados e cabotino

Corria de um lado pro outro
da porta ao encontro da janela
corria como se fosse de um mostro
corria do egoísmo que havia dentro dela

Os dias passam, me levando a beleza à morte
eu, dentro desse quarto que é o mundo
sonho acordado vendo minha sorte
exposto ao puder acariciada, exposto a tudo

A princesa via-se acariciada de beijos
via-se acariciada de mãos alheias
honra-lhe a volúpia de desejos
pois corre o líquido por entre as veias

Ele tão corajoso a respeita
tão fiel ao seu amor corrompido
dar-lhe os braços e a aceita
e voa com asas emprestada de um cupido

Rompe-se a aurora enfadada
com um toque que buscaram em outrora
como um toque mágico de fada
lembraram de todo firmamento nessa hora

Agora quem a Princesa dos Egos via?
era o príncipe fiel de seu inferno
que era ele mesmo olhando pra si e de si corria
que era a pura passagem do amor eterno,

Franklin Paulino, há mais de 25 anos.

03/03/2026

POEMA DE MARÇO

Chovia e eu não entendia a rua
era porque eu fitava a escuridão sorrateira
percebi que não havia brilho de lua,
não havia riso, não havia a palavra companheira

Era sim o mês de março e não cabia
a tristeza querer vir ocupar meu espaço
sim, era tudo isso e eu não sabia
por que as incertezas começavam em março?

Talvez entenda as agruras que passo
vejo que tudo recomeça agora
os rios enchem de alegria ditando o compasso
gota a gota, minuto a minuto, hora por hora

Tudo ferve e a folia é vendaval
quando cai a máscara, o medo aparece
são os dias seguintes, depois do carnaval
de um lado incertezas, do outro uma prece

Verde é o casaco que a caatinga veste
a água se repõe no bebedouro de aço
o alimento acaba com a fome peste
Para quem inda é amor, sou o poema de março

Franklin Paulino.

15/02/2026

FORA DO RETRATO

Aquilo que não é permitido eu faço

como quem chupa manga e bebi leite

quem me impedir de viver eu traço

a ferrugem da engrenagem que oxida a elite

Seara infame que vejo em que eu nada possa

banquetear-se de ignorância que a fome arrota

sempre fui convidado pra limpar fossa

e deixado a esmo do outro lado da porta

Sou aquele menino que só recebe sentença 

ave de mau agouro sempre reprimida

o cascalho ateu que não tem crença

o pano podre que limpa a ferida

A aparição id**ta no cento da foto

a família e seu brasão petrificado

é a soberba da cabotinez, não do fato

os dois lados moeda e o seu significado 

A ode do poeta em si é uma caricatura 

há muito, da alcova, não honro meu contrato 

do painel sou uma sombra em miniatura

da paisagem sou um rosto do fora do retrato

Franklin Paulino.

12/02/2026

LATRINA

Todos os dias acordamos sós
com um só propósito de vida, um norte
mas a finalidade da vida é a morte
ninguém se ilude, ninguém desata esses nós

A solidão é um beco escuro sem saída
deparamo-nos se é possível voltar
e nada nos acalenta e não nos deixa a par
desse abismo infinito que só tem caída

Não podemos traduzir saudade
porque ela mesma é o próprio passado
e não se mexe no que não mais existe
então, lembrança, ficas numa caixa guardada

Estamos entre nós para discutir quimeras
somos pedaços de carne apodrecendo
não vamos encontrar num almanaque dizendo
onde somos espíritos e onde somos feras

Não me ofendo de ser essa latrina
ao menos tenho uma função social
homens criam deuses e normalizam o mal
eu, lugar, em que a poesia e lâmina se afina

Franklin Paulino

22/01/2026

Palavras cruzadas

A doença consome da vida
a caminho da morte atroz
aquela queixa que o coração tem dividida
acabou toda certeza que havia entre nós

Quando se cruzam quimeras
com palavras perdidas
já é o fim da primavera
e as flores vão se tornando esquecidas

A coluna que sustenta a viga
quando se rompe é primazia de despedida
quando ela distende, se vinga
o amor acaba, está aberta uma ferida

Distonante o sentido carnal
o espelho condenador não me causa mais reflexo
disse o que não disse, pois é banal
que a tampa da panela seja um convexo

Palavras cruzadas são um jogo perverso
de uma retórica amarga e cruel
é a estrofe na construção de cada verso
vértice na horizontal do papel

Franklin Paulino.

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