Thiago Aquino Consultoria de Vinhos

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Se eu fosse famosoHá uma espécie de prestígio injustamente distribuído entre as coisas que merecem ser vistas. Algumas r...
22/07/2026

Se eu fosse famoso

Há uma espécie de prestígio injustamente distribuído entre as coisas que merecem ser vistas. Algumas recebem moldura, parede branca e silêncio. Outras ficam no chão.

De tudo o que fotografei em Maragogipinho, foi esta que mais gostei de fazer. A caminho de uma olaria, encontrei dois tênis pretos, uma única meia, pedra, água e limo. Nada foi deslocado ou preparado. A fotografia já existia. Meu trabalho foi percebê-la.

Talvez por isso goste tanto de Street, dessa curiosidade pela vida e seus vestígios. Olho para cima, para baixo e para os lados. Procuro reflexos, sombras, detalhes. Olhar apenas para o chão é um desperdício: metade dos milagres pode acontecer acima da cabeça. Desta vez havia um esperando no chão.

A composição oferece dois percursos, quase duas imagens em uma. Se o olhar entra pelo tênis superior, segue a diagonal do par até a única meia, clara e cortada pela borda, conduzindo para fora do quadro. Se começa por ela, o caminho se inverte: entramos pelo que quase escapa, passamos pelo inferior e chegamos ao superior. Nesse percurso, o limo verde e úmido encontra a pedra mineral; a água modifica a luz no chão molhado, e o preto preserva brilho, desgaste, textura e profundidade.

Do que vemos nascem histórias. Por que os cadarços estão amarrados? Por que dois tênis e só uma meia? Bebedeira? Briga? Alguém foi tomar banho de rio? Enjoou deles? Era amante e, descoberto, fugiu sem tempo de calçá-los?

Não sei. Ainda bem. O que houve antes ficou fora do quadro, como parte da meia. Nessa ausência, contamos várias histórias na cabeça.

Se eu fosse famoso, talvez dissessem que algo tão simples de executar, dependente de atenção para existir, merecia a capa de um grande livro ou ser a imagem central de uma exposição. Chamariam-me gênio.

Mas quem disse que não é isso que vai acontecer?

Uma boa imagem não precisa ser explicada. Meus textos nascem do que senti, mas desta vez precisava falar da satisfação e do orgulho de perceber o que estava diante de mim. Amo o que fiz: reconheço nele aquilo que mais gosto de fazer.

Thiago Aquino
t.a., 2026

Para Nossa Senhora não verTalvez ainda nos reste alguma vergonha diante dos santos.Nossa Senhora da Conceição permanece ...
22/07/2026

Para Nossa Senhora não ver

Talvez ainda nos reste alguma vergonha diante dos santos.

Nossa Senhora da Conceição permanece coberta enquanto São Francisco tenta sobreviver àquilo que nenhuma cobertura consegue ocultar: a maneira como tratamos nosso patrimônio. A imagem é quase indecente em sua precisão. Em torno dela, uma das mais extraordinárias expressões do barroco brasileiro. Ouro, madeira, talha, pintura, séculos de inteligência humana. Sobre ela, um s**o.

A Igreja e Convento de São Francisco pertencem a uma instituição religiosa. É verdade. Mas a propriedade termina onde começa o patrimônio.

Quando uma obra atravessa séculos e passa a constituir a memória cultural de uma sociedade, sua importância já não cabe numa escritura. A arte não reconhece cartório como fronteira de pertencimento, tampouco pergunta a religião de quem a contempla.

Que me perdoem meus amigos franciscanos, mas aqui até a religião é ultrapassada.

Quando parte do teto desabou, em 5 de fevereiro de 2025, vieram as fotografias, as manifestações públicas, a comoção, os pronunciamentos. Tragédias produzem uma extraordinária capacidade momentânea de atenção. O problema começa quando o acontecimento deixa de ser notícia e o patrimônio continua precisando existir.

Desde então, segundo ouvimos dos franciscanos, nenhuma romaria semelhante de poder voltou à porta para perguntar: o que falta?

Preservar São Francisco não é salvar uma igreja para os franciscanos.

É decidir quanto vale, para nós, continuar tendo memória.

Cultura não tem dono no sentido mais profundo da palavra. Não é ornamento para quando todos os problemas “mais importantes” estiverem resolvidos. É aquilo por meio do qual uma sociedade reconhece quem foi, compreende quem é e decide o que será capaz de transmitir.

Uma jovem de 26 anos perdeu a vida no dia em que visitava um lugar que sonhava conhecer. Uma vida não existe para dar sentido a um monumento. Somos nós que carregamos a obrigação de não permitir que essa morte seja absorvida pelo esquecimento.

(Continua na próxima página)

Thiago Aquino
t.a., 2026

O teto caiu. A responsabilidade, não.

Acima de nossas cabeças está aquilo que precisou cair para que voltássemos a olh

AfinalMorei nos dois países. Talvez por isso uma final entre Espanha e Argentina não consiga, para mim, caber apenas no ...
19/07/2026

Afinal

Morei nos dois países. Talvez por isso uma final entre Espanha e Argentina não consiga, para mim, caber apenas no futebol. Há lugares que passam a participar da maneira como entendemos o mundo.

A Espanha chegou primeiro e ficou mais tempo. Deu muito à minha visão de mundo, inclusive que não precisamos de um quintal de extensão para chamar algum lugar de casa. Ensinou-me a fazer amigos longe. No ano passado, reencontrei um deles em Barcelona depois de dez anos. Parecia que não haviam passado dez dias.

Foi também ali que a gastronomia, o vinho, a leitura e a arte ganharam outra dimensão. Frequentei museus incansavelmente, parques, cafés, livrarias e bibliotecas. Aprendi a dar valor às festas regionais, à religião, aos ritos e às coisas antigas. Sou apaixonado por tudo isso. Em Sevilla, em 2009, comprei minha primeira câmera, uma Fuji. Fotografava em automático, depois passei à prioridade de abertura. Eu ainda não sabia, mas começava ali uma educação do olhar.

Tenho pela Espanha um carinho inenarrável. Para mim, é o maior país do mundo.

A Argentina chegou de outra maneira. Morei lá no ano passado, trabalhando. Estranhos viraram amigos. Confidências viraram esteio. Fala-se da rivalidade entre brasileiros e argentinos, mas não a encontrei como tantas vezes é contada. No futebol, sim, mas com humor, resenha, graça. Eles sempre acham que vão ganhar. Talvez devêssemos aprender a ser um pouco mais nacionalistas. Quem sabe…

Antes, morei em Caracas e Quito, experiências esplêndidas. Mas a Argentina, especificamente Córdoba, cuidou de mim no pior momento da minha vida e me ajudou a sair de lá. Há gratidões que não cabem em explicações. Permanecem. Córdoba foi algo impressionante. Comparo o carinho que tenho por ela ao que construí por Barcelona.

Tenho contato há mais tempo com a Espanha, embora tenha visitado muito mais vezes a Argentina, pela proximidade, facilidade e preço. Barcelona e Córdoba ocupam em mim uma vizinhança que nenhum mapa explicaria.

Agora, diante de uma final, não consigo escolher uma memória contra a outra.

Que seja da forma mais justa possível. Que o futebol imite a arte e, no final, tenhamos apenas aplausos.

Thiago Aquino
t.a., 2026

Ritmo de BundasOutro dia ouvi, mais uma vez, um conselho daqueles que chegam carregados de certeza: se quiser viver de a...
16/07/2026

Ritmo de Bundas

Outro dia ouvi, mais uma vez, um conselho daqueles que chegam carregados de certeza: se quiser viver de arte no Brasil, ceda um pouco. Publique umas bundas. Coloque uma música do momento. Faça o algoritmo trabalhar por você.

Confesso que o argumento tinha certa lógica. O algoritmo parece apreciar aquilo que já conhece. Poucas coisas lhe dão tanto conforto quanto oferecer ao olhar exatamente o que ele espera encontrar.

Nunca tive qualquer desavença com a sensualidade. Ao contrário. Sempre admirei o corpo humano. Gosto de ver a luz percorrendo uma pele, contornando uma clavícula, demorando-se na curva da nuca antes de encontrar o pescoço. Gosto das costas. Gosto das covinhas. Continuo convencido de que Deus jamais desperdiçaria covinhas em gente feia. Gosto desse repertório de formas que transforma anatomia em linguagem. Mas o corpo, sozinho, nunca me bastou. Quando uma fotografia não carrega uma pergunta, uma narrativa, uma tensão ou uma condição, resta apenas superfície.

Talvez por isso eu tenha demorado a perceber que uma imagem raramente vive do assunto. Ela vive da maneira como organiza o olhar.

Resolvi seguir o conselho.

Trouxe bundas.

Passei um bom tempo olhando para elas. Não exatamente para elas, mas para o ritmo que produziam. Cada uma conduzia a seguinte. A repetição jamais era absoluta. Bastava uma cauda mudar de direção, uma manta interromper discretamente a cadência ou a luz encontrar o barro de outra maneira para que tudo escapasse da monotonia. As sucessivas camadas sustentavam a profundidade. A compressão dos planos transformava a fila numa única respiração visual. O requinte das mantas encontrava a rudeza do barro sem que um anulasse o outro. Foi ali que a fotografia aconteceu.

As bundas estavam todas presentes.

Eram de cavalos.

Curiosamente, esse acabou sendo o detalhe menos importante da fotografia.

Thiago Aquino
t.a., 2026

O sorriso do pangaré- série: Autobiografia Não me refiro ao cavalo, ao menos não àquele imobilizado pela câmera, mas a m...
16/07/2026

O sorriso do pangaré
- série: Autobiografia

Não me refiro ao cavalo, ao menos não àquele imobilizado pela câmera, mas a mim mesmo.
Jamais cultivei o hábito de distribuir sorrisos a desconhecidos, nem nos tempos de juventude e de excessos. Vivi com pressa suficiente para reconhecer, hoje, que bastariam dois dedinhos a menos no acelerador. Não por arrependimento, mas por bom senso. A passagem do tempo não reescreve o passado; apenas me impõe outra escala de medida. A fotografia, no entanto, desarmou essa antiga convicção.
Na fotografia de rua, o que me captura é o instante anterior à pose, o milésimo de segundo em que as pessoas pertencem ao próprio cotidiano. Trabalho com teleobjetivas, que comprimem os planos, preservam a distância e revelam detalhes que se dissipam quando o sujeito se percebe sob a mira de uma lente.
Essa escolha documeta uma fricção física inevitável. Imagine um pedestre caminhando distraidamente quando, de súbito, depara-se com um homem alto, tatuado, carregando uma lente descomunal e observando tudo com obstinação. Antes que qualquer palavra exista, meu corpo já invadiu o espaço do outro, quase nunca da maneira correta.
A imagem me impôs um aprendizado severo: o corpo se anuncia antes do verbo. O sorriso passou a operar como ponte, uma licença silenciosa entre estranhos. Sem esse gesto de abertura, resta apenas a presença de um homem de semblante fechado apontando uma lente pesada contra quem jamais me viu. A concentração necessária para o flagrante facilmente se confunde com intimidação.
Não me converti em um caminhante expansivo. Permaneço reservado. A diferença é que hoje procuro atenuar o impacto que minha presença projeta antes de mim. A fama de marrento, construída em segundos, sempre foi a armadura de uma timidez incurável.
No fim, este pangaré persiste como eterno aprendiz. A câmera já me conduziu a caminhos difíceis e a encontros improváveis, mas desfez minhas defesas ao provar que a fidelidade a mim mesmo não pressupõe a imobilidade. Sigo sendo eu, apenas menos convicto de que transformar-se seja uma forma de deixar de existir.

Thiago Aquino
t.a., 2026

Carvalhadas de Poconé: um conflito simbólicoNa manhã em que as bandeiras ocupam o campo, ninguém procura Carlos Magno. T...
16/07/2026

Carvalhadas de Poconé: um conflito simbólico

Na manhã em que as bandeiras ocupam o campo, ninguém procura Carlos Magno. Também não se percorrem os caminhos da Península Ibérica. O nome dos mouros e dos cristãos continua pronunciado, mas a paisagem já pertence ao Pantanal. A poeira não conhece castelos. Os cavalos jamais cruzaram fronteiras mediterrâneas. Ainda assim, a narrativa permanece compreensível porque encontrou outro lugar para existir.

A história chegou como empréstimo. Poconé recusou a condição de depositária. Alterou a cadência, submeteu o antigo romance cavaleiresco ao calendário de São Benedito e permitiu que a experiência local substituísse a fidelidade documental. Aquilo que nasceu como literatura transformou-se em compromisso coletivo. A cada edição, a cidade não revive um episódio remoto; reafirma a autoridade de decidir o que merece continuar sendo contado.

Os vinte e quatro cavaleiros conhecem um roteiro transmitido durante décadas. Argolas, bastões, carreiras, a tomada do castelo e a captura da rainha moura obedecem a uma ordem precisa. Nada, porém, encontra sentido isoladamente. Cada episódio depende do anterior e prepara o seguinte, como um manuscrito cuja leitura exige a presença integral de todas as páginas. Retirar uma delas comprometeria o entendimento do conjunto.

Talvez resida nesse aspecto a singularidade das Carvalhadas de Poconé. A antiga disputa jamais desapareceu; perdeu a obrigação de permanecer europeia. O Pantanal não recebeu uma lembrança pronta. Recebeu uma narrativa suficientemente aberta para admitir outra terra, outra devoção e outra maneira de compreender o mundo. Desde então, o enredo deixou de viajar. Encontrou destino.

Thiago Aquino
t.a., 2026

ReflexoA Física jamais encontrou morada confortável durante meus anos de ensino médio. Em casa, entretanto, ocupava outr...
14/07/2026

Reflexo

A Física jamais encontrou morada confortável durante meus anos de ensino médio. Em casa, entretanto, ocupava outro estatuto. Meu pai dominava, com impressionante facilidade, tanto a Física quanto a Matemática. Sem praticamente estudar, sentava-se diante dos exercícios mais intrincados e os resolvia. Eu assistia, atônito, àquela intimidade com problemas cuja complexidade me parecia intransponível.

Décadas mais tarde, foi esta fotografia que restituiu aquela lembrança. Não a embarcação, mas sua duplicação luminosa conduziu meu pensamento às antigas lições sobre espelhos côncavos e convexos, até alcançar a noção de imagem virtual. Dotada de posição aparente, engendrada pelo prolongamento dos raios luminosos e incapaz de ser projetada sobre qualquer anteparo, subsiste com uma evidência que desafia a própria materialidade. Sua existência pertence ao domínio da Óptica; sua permanência, porém, consuma-se no ato da contemplação.

Foi então que reconheci uma inclinação que sempre me acompanhou sem jamais se anunciar.

Se me fosse concedida a escolha, recusaria a canoa. Preferiria navegar, pescar, viajar ou simplesmente existir naquele reflexo. Habitaria a imagem antes do objeto. Escolheria a presença óptica em lugar da madeira, porque é precisamente nessa configuração óptica que reconheço a natureza mais profunda do meu ofício.

A fotografia jamais abdica de sua condição bidimensional. Ainda assim, por intermédio da perspectiva, da incidência luminosa, da composição e da técnica, persuade o cérebro a reconhecer profundidade, volume e distância onde nenhuma dessas dimensões possui existência física. Não produz espaço. Institui sua verossimilhança. Não fabrica matéria. Edifica uma convicção perceptiva.

Toda fotografia constitui menos um registro do mundo do que uma arquitetura visual destinada a persuadir a percepção de que uma superfície adquiriu profundidade e de que a luz aprendeu a edificar dimensões inexistentes.

Somos apenas fotógrafos ou praticantes de uma forma contemporânea de alquimia?

A luz oferece aparências; a sombra preserva aquilo que o invisível jamais deixou de conhecer.

— Thiago Aquino, 2026

O PriudesformConfesso, isso não é um Priudesform, mas diga se não está igualzinho a qualquer Priudesform que você já viu...
14/07/2026

O Priudesform

Confesso, isso não é um Priudesform, mas diga se não está igualzinho a qualquer Priudesform que você já viu na vida.

Como assim você nunca viu nenhum?

Pois eu tampouco. O curioso é que isso pouco importa. Priudesform não existe. A arte, porém, sim; e é nela que nos assentamos para acolher aquilo que jamais obteria cidadania no estreito território do senso comum. Há invenções que dispensam certidão de nascimento: basta-lhes um nome para começarem a habitar a imaginação.

Este nome, simplesmente, nasceu quando virei o rosto e deixei os dedos correrem pelo teclado a bel-prazer, sem cálculo, sem intenção, sem o menor compromisso com a lógica. Quando tornei a olhar, lá estava: Priudesform. Palavra sem origem conhecida, sem definição, sem parentesco. Nada significa; exatamente por isso, pode simbolizar tudo quanto ainda não encontrou linguagem capaz de lhe fazer justiça.

A arte vive desse antigo atrevimento: dar vida ao que nunca existirá, fazer sentir perfume onde nenhuma flor desabrochou, conservar na memória o que jamais aconteceu, escutar sons que nunca romperam o silêncio, enxergar onde os olhos insistem em jurar haver apenas sombra. Ela não amplia somente o mundo; alarga, sobretudo, as fronteiras do possível.

Esta é a minha vida; este é o meu Priudesform. Assim também caminham entre nós Chicó, João Grilo, Gabriela, Dona Flor, Capitu e tantos outros que nunca precisaram da realidade para conquistar permanência. Há criaturas cuja existência depende menos da biologia do que da imaginação; talvez por isso sobrevivam ao próprio tempo.

Viver de arte é difícil, mas impossível mesmo é viver sem ela. Ouvi essa frase de um dos maiores artistas que conheço e invejo-lhe apenas uma coisa: a autoria. Porque há sentenças que gostaríamos de ter escrito não pela vaidade da assinatura, mas pela serenidade com que dizem aquilo que levamos anos tentando aprender.

— Thiago Aquino, 2026

Os Sustos da CulturaHá uma forma particularmente sofisticada de empobrecimento intelectual: imaginar que uma cultura som...
14/07/2026

Os Sustos da Cultura

Há uma forma particularmente sofisticada de empobrecimento intelectual: imaginar que uma cultura somente adquire legitimidade quando se torna imediatamente inteligível. Trata-se de uma exigência curiosa, pois nenhuma realização humana de longa duração nasceu oferecendo transparência ao primeiro contato. O que permanece atravessa, antes, um intervalo de opacidade; e esse intervalo não constitui um defeito da cultura, mas uma propriedade de sua própria existência.

Os Caretas de Acupe habitam precisamente essa zona. Não porque ocultem um significado secreto, mas porque recusam submeter-se ao desejo contemporâneo de converter toda manifestação coletiva em objeto de consumo interpretativo. A ansiedade classificatória transforma rapidamente qualquer acontecimento em folclore, espetáculo ou curiosidade etnográfica, como se nomear bastasse para esgotar aquilo que insiste em permanecer excedente à linguagem.

Existe, contudo, um aspecto mais incômodo. Toda comunidade estabelece, consciente ou inconscientemente, um regime de inteligibilidade: um conjunto de critérios que determina o que merece reconhecimento e o que será descartado como extravagância. O problema não reside na existência desses critérios, inevitáveis em qualquer organização social; reside na crença de que eles possuam autoridade suficiente para julgar formas de vida produzidas por outra gramática histórica, outra economia simbólica e outro modo de ordenar o sensível.

Talvez o verdadeiro desconcerto provocado por Acupe não esteja nas máscaras, tampouco na encenação. O desconcerto emerge quando percebemos que nossa primeira reação consiste menos em compreender do que em reduzir. E reduzir, nesse caso, revela uma limitação do intérprete, não daquilo que se oferece à interpretação.

— Thiago Aquino, 2026

Rinoceronte BaianoOs tratados de zoologia jamais registrarão esta espécie.Não porque lhe faltem ossos, músculos ou sangu...
14/07/2026

Rinoceronte Baiano

Os tratados de zoologia jamais registrarão esta espécie.

Não porque lhe faltem ossos, músculos ou sangue, mas porque jamais pertenceu ao domínio da natureza. Pertence a outro campo, muito mais difícil de catalogar: o da invenção coletiva.

Há um equívoco recorrente em supor que a criação popular aspire à fidelidade. Nunca aspirou. Sua ambição sempre foi outra. Não reproduzir o mundo, mas ampliar o número de coisas que o mundo é capaz de conter.

O rinoceronte de Acupe não representa um rinoceronte. Representa a liberdade de abandonar a obrigação da semelhança.

Toda representação nasce submetida a um modelo. Toda criação verdadeira começa quando o modelo deixa de importar.

Por essa razão, a pergunta mais pobre diante desta fotografia talvez seja: “Com o que ele se parece?”

A pergunta fecunda seria outra.

O que tornou possível imaginar uma criatura que nenhuma necessidade exigia e, ainda assim, acabou conquistando um lugar permanente dentro de uma celebração?

Os Caretas de Acupe responderam sem escrever tratados, manifestos ou teorias. Responderam produzindo uma forma que não reivindica autenticidade zoológica, precisão histórica nem fidelidade estética. Reivindica apenas o direito de existir.

Talvez toda cultura alcance sua maturidade quando deixa de repetir o mundo e passa a acrescentar algo a ele.

Este rinoceronte jamais caminhou pelas savanas africanas.

Nem por isso deixou de encontrar o seu habitat: o recôncavo baiano.

— Thiago Aquino, 2026

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Thiago Aquino Consultoria De Vinhos
Maragogipinho, BA

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