24/05/2026
O ocaso de uma Feira de Sucesso
Há mais de doze anos atrás, havia um movimento efervescente em Piracaia de busca por novidades e desenvolvimento, tanto na agricultura quanto na cultura oferecida aos munícipes.
Na agricultura discussões sobre orgânicos e agroecologia, trazida pela Família orgânica e o movimento que ficou conhecido como neo-rurais, pequenos sitiantes que saíram da cidade grande e que sonhavam com uma vida mais simples e ligada à natureza.
Na Cultura se juntaram à cidade, também egressos das grandes cidades, músicos, cantores, artistas e gente que trabalhavam com leitura, teatro e outras formas de expressão humana com muita vontade de aplicar seus conhecimentos em favor de Piracaia. A cidade parecia ter caído no encanto de muita gente com vontade de se aconchegar num lugar lindo cercado por montanhas e represas, gente boa de conversa e uma cultura popular rica como as congadas, Caiapós, catira, violeiros e tantos músicos e poetas desconhecidos da grande mídia, mas de grande talento.
É aí que eu e minha família entramos nessa história, vindos de SP na busca de maior tranquilidade e segurança para as filhas e tendo há alguns anos sitio em Piracaia, quando meu marido foi convidado para a diretoria do Sindicato Rural de Piracaia, iniciamos algumas discussões em casa do que víamos dos sitiantes e dos associados do Sindicatos, e então nasceu a ideia da feirinha do produtor.
Juntamos um pequeno grupo de produtores, os diretores do sindicato e o Engenheiro da Casa de Agricultura e começa a tomar forma o projeto da feira do produtor rural.
Em 20/03/2015 houve a primeira montagem da feira dentro das dependências do Sindicato Rural, inicialmente com 8 produtores com produtos sazonais de suas pequenas produções.
De início os clientes eram os amigos apoiadores da ideia, mas logo aquele burburinho no quintal do Sindicato, aquela aparência de festa e encontro começou a chamar atenção da cidade e sempre estávamos no portão explicando que era um evento aberto e mostrando os produtos.
E assim foi crescendo em número de cliente e produtores, lembro da fila que formava na porta do sindicato no horário do início da feira!
Daí para ir para um espaço maior passou somente pouco mais de um ano, a ex prefeita Terezinha ofereceu um espaço em local público, a comissão da feira, decidiu pelo espaço na Praça Monsenhor Farah, que nessa época era um espaço abandonado tanto pelo poder público como pela população. Nesse tempo já contava com mais de 15 expositores entre produtores e agregados (assim denominados os que vendem produtos manufaturados a partir de ingredientes adquiridos dos produtores) e vimos surgir um espaço de confraternização, encontro e à medida que crescia essa tendência de reunião de moradores rurais e urbanos e comerciantes vizinhos crescia também a procura por espaço de vendas de outros produtos que não se encaixavam no estatuto da Feira do Produtor (sim, já tínhamos um estatuto de regulamentação do tipo de negócio que oferecíamos) e mais uma vez tivemos a iniciativa de criar outra feira para esses produtos, a feira de artesanato e cultura que denominamos Feira do Rosário, sob a supervisão do Instituto Cultura Etc iniciou num feriado de São Sebastião chuvoso!
As duas feiras do Produtor Rural e do Rosário cresceram e lutamos por uma lei que as regulamentasse, foi feito em conjunto com os vereadores Marmita e Toninho Leandro e seus assessores e foi sancionada pelo Prefeito Silvino.
Assim temos Leis separadas que regulamenta as duas feiras, uma comissão bipartite com representante dos feirantes e da prefeitura, na figura do diretor da agricultura (hoje secretaria). Configurando uma parceria Púbico privado, os produtores são responsáveis por suas bancas, organização e iluminação (reposição de lâmpadas por exemplo) e o poder público oferece o local e a limpeza da praça e banheiros, atualmente, pois, de início éramos responsáveis pela limpeza também.
Cada evento se tornou uma festa! Apresentação de Cantores e músicos , de circo, teatro, work shop de artesanato e bordado acabou por repercutir no turismo, o turista que passava direto para seus sítios ou casa na represa entra na cidade para passar na feirinha e levar nossos produtos.
A feira começou a chamar atenção das cidades vizinhas, inspiramos Joanópolis, Bragança e Atibaia que retornaram com suas feiras do produtor.
O município foi indicado para Município de Interesse Turístico, tivemos um importante papel nisso, vieram representantes conhecer a feira e nossos produtos, o movimento de turistas e moradores em torno da feira e seu agradável ambiente tornou possível o MIT que desde 2020 ou 21 passou a entregar ao Município R$ 600.000,00 para fomentar o turismo e sendo a Feira do Produtor contemplada com a cobertura da Praça com o primeiro lote dessa remessa.
Onze anos se passaram, sem termos furado um evento de feira sequer, em constância de atendimento aos nossos clientes e inovação nos produtos, até que a atual administração resolveu que precisava manter o controle e “regulamentação” da feira e se apropriar do espaço da praça Monsenhor Farah quando houver eventos outros na cidade, ao nosso entender para aproveitar de um movimento na praça já consolidado, por esse trabalho semanal ao longo dos anos, seja zelando pela qualidade dos produtos, seja na divulgação em redes socias e mídia de Piracaia, seja zelando por um espaço limpo, iluminado e agradável aos clientes e aos transeuntes da praça. Por tudo isso não aceitamos de início sair do nosso local de trabalho, garantido por lei, durante esses períodos, foi assim que no Natal Luz, levamos nossa feira para a Gruta em respeito aos clientes que nos prestigiam há 11 anos, já que o espaço que ofereceram era escuro e sujeito ao transito de carros.
E na sexta feira 22/05 fomos surpreendidos com uma nova legislação/decreto que tira a responsabilidade da Feira do Produtor Rural da pasta da secretaria da agricultura e passa ao controle da pasta de Cultura e Turismo e retirando poder de voto dos produtores que passam a ser meros vendedores de produtos e o secretário o responsável pela administração da feira.
Nós, meu marido e eu trabalhamos esses anos todos voluntariamente com propósito de ajudar o pequeno produtor a chegar aos consumidores, beneficiando ambos, um vende com lucro maior sem atravessador e outro compra mais barato e produtos mais frescos, nosso intuito era esse.
Ainda que tenhamos a banca de produtos Dandão, nosso sítio, para nós é prejuízo operacional, não paga um terço dos gastos com o sítio e produção das geleias.
Enquanto tínhamos um propósito social esse trabalho sempre nos deu prazer e orgulho, mas na conjuntura atual preferimos nos retirar e nos proteger da preocupação com os rumos da atual Feira do Produtor.
Sentimos muito por aqueles que da Feira levam seu sustento para casa e não podem tomar essa decisão, embora saibamos que a maioria dos produtores não estão satisfeito com essa gestão que impõe suas decisões ao invés de buscar soluções melhores para as partes.
Não concordamos com a saída da feira de seu local, principalmente em épocas de festa e maior movimento e vendas, não concordamos com o desrespeito aos produtores, não concordamos com o aproveitamento de nosso trabalho de 11 anos em conquistar os turistas e os piracaienses que frequentam nossa Feira para que venha alavancar movimentos de pessoas para eventos outros.
Estamos nos retirando da feirinha. E está página por mim alimentada desde sua criação não mais será atualizada.
Agradeço a companhia do mais de 3.700 seguidores nos últimos anos. Fiquem na companhia das fotos e vídeos como lembranças de outros tempos!
Silvana Prioste Moro