Em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, chega ao Brasil, após uma travessia naval pelo Atlântico, José Maria Navarro, meu bisavô materno. Trouxe consigo seus três filhos, entre eles, meu avô, Pedro Navarro, então com quatro anos de idade. Ela, minha bisavó, grávida de minha avó, Francisca Guerra. Ambas famílias, todos fugidos da guerra, foram morar na cidade de Arroio dos Ratos/RS, para trabal
har nas minas de carvão. Pedro e Francisca cresceram juntos e, sem demora, o amor os uniu. Casaram-se ainda muito jovens, em 25/05/1933 e foram morar em Porto Alegre. Tiveram dez filhos e apenas quatro sobreviveram: Adão, Carlos, Marli e Eva, mais conhecida como Evinha, minha mãe. Dentre tantos trabalhos, foram comerciantes, donos de um bar na Rua Alfredo Costa, no bairro Medianeira. O gosto pelo mocotó, produzido apenas para o consumo da família, os fez iniciar a comercialização do produto ali no bar, lá pelos anos de 1957. A fama se espalhou pelo bairro e a venda era garantida, com o produto sendo servido ali mesmo. Nestes tempos, Francisca já era conhecida apenas pelo apelido, Dona Paca. Os filhos cresceram, o bar fechou, as vendas encerraram, porém, durante os invernos, o panelão continuou indo ao fogo, para satisfazer o gosto da família. Vieram os netos, que são meus irmãos e primos e o gosto pelo prato não se perdeu com o tempo, mesmo após o falecimento da Vó Paca e do Vô Pedro. Certo dia, há mais de vinte anos, eu e minha mãe, resolvemos fazer uma quantidade maior para comercializar entre a família e os amigos. Reiniciou naquele momento, a produção para comércio, do Mocotó da Vó Paca. O antigo panelão, de muitas histórias, não existe mais. Os anos passaram, com a venda garantida de toda a produção. Em 2017, eu e meu marido decidimos morar em Pelotas e minha mãe foi morar conosco. A produção foi interrompida, mas o desejo de continuar a tradição da família, não nos abandonou. Chegou o inverno de 2019, um dos mais rigorosos dos últimos anos e lá estávamos nós, decididos a produzir este alimento, que é ligado à cultura africana, no último reduto escravagista do estado, terra das charqueadas e dos doces. Dona Evinha, hoje bisavó de Pedro (membro mais novo da família Navarro, que carrega o nome de seu trisavô), auxiliava no controle da qualidade e na distribuição das encomendas. Em setembro/2020, retornamos para Porto Alegre, onde continuamos dando sequência à nossa história. Então, apresentamos a você este prato, que tem a mesma receita desde 1957. O Mocotó da Vó Paca! Faça sua encomenda e bom apetite!
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