04/03/2025
O vinho dos vulcões à prova em Lisboa
Ontem tive oportunidade de participar numa apresentação especial de vinhos dos Açores. O local foi o “Zunzum Gastrobar”, da estrelada Chef Marlene Vieira, na Doca do Jardim do Tabaco, e os anfitriões os produtores italianos Cinzia e Gianni Mancassola, oriundos de Florença, que, desde 2016, se apaixonaram pela beleza das ilhas do Faial e Pico e aí se tornaram viticultores. Uma brochura, com uma espetacular fotografia da erupção dos Capelinhos, de 1957, que eu tive oportunidade de ver em direto pela televisão, tinha por título “A Herança do Vulcão” e subtítulo “Adega do Vulcão”. Íamos, portanto, provar vinhos vulcânicos, que eu gosto mais de chamar “vinhos dos vulcões”. De facto, não é só um vulcão, mas dois. O dos Capelinhos, no Faial, que, volta meia volta, acorda e atemoriza os faialenses, a ponto de muitos emigrarem para a América, e o do Pico, que está a dormir há mais de três séculos, mas cuja dimensão e emanações gasosas nos põe a todos em sentido. Os vinhos que íamos provar são, na real aceção da palavra, ”vinhos dos dois vulcões”, pois a vinha do Faial, com cerca de 7 ha, foi recentemente plantada nas cinzas da última erupção, e a vinha do Pico, com cerca de 10 ha, está plantada, há muito, nas fraturas de uma antiga escoada lávica do grande vulcão do Pico, o célebre Lagido da Criação Velha.
O vinho de boas-vindas foi o Ameixâmbar, 2023, IG Açores, provado em pé, a acompanhar pataniscas de bacalhau e croquetes de leitão. Segundo a ficha técnica, foi feito com as três grandes castas dos Açores — Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico — provenientes das vinhas do Faial e do Pico, razão por que é um IG Açores. Logo me encantei com a delicadeza de aroma e o equilíbrio de sabores, onde o caráter “atlântico” era dado por uma acidez vibrante e uma textura aveludada. Tínhamos começado bem!
Quando nos sentámos, serviram-nos outro Ameixâmbar, cuja cor amarelo palha me criou logo enorme expetativa. Segundo a brochura, era suposto ser, de novo, o de 2023, mas aquela cor e um aroma surpreendente mostravam que não podia ser. Quando o vinho foi explicado, soubemos que tinha havido mudança de planos e era um lote de um vinho de 2018 com um de 2019. Em boa hora aconteceu a dita mudança de planos, pois a complexidade de aroma e de sabor colocava-o dois degraus acima do seu irmão mais novo, recordando-me a velha regra dos brancos dos Açores: “Quanto mais velho melhor!”
Antes de ser servido o terceiro branco, Gianni Mancassola explicou para todos os presentes, e eram muitos, a aventura de fazer vinho no meio do Atlântico, depois de toda a família ficar rendida ao encanto das ilhas e aos “preciosos” brancos açorianos. O projeto assenta numa viticultura sustentável, com um mínimo de adição de químicos e com fertilização natural, nas castas tradicionais e numa enologia de intervenção minimalista, mas muito exigente. Importará, por isso, salientar que todos os vinhos provados tinham um nível de sulfitos surpreendentemente baixo.
O vinho seguinte foi o Terra Brum, Reserva 2023, DO Pico, que, como o nome sugere, foi feito exclusivamente com uvas de Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico, das vinhas do histórico Solar Terra Brum, na Areia Larga. Mais uma vez não deixou os créditos por mãos alheias, revelando o caráter atlântico no seu melhor, uma acidez equilibrada, um distinto flavor aromático e uma textura acetinada, fruto de um estágio de dez meses sobre as borras finas.
De seguida apresentou-se a exame o já mediático Pé do Monte, Reserva 2020, DO Pico, com 13,5% (v/v) de álcool. Reconhecido como um dos grandes brancos portugueses, surpreendeu pela sua cor amarelo citrino, mostrando que os anos não provocaram a sua evolução rápida. Feito com as três castas tradicionais, onde domina o Arinto dos Açores (80%), de uma vinha com uma idade média de 80 anos, mais uma vez surpreendeu, notando-se o corpo e o atraente perfil aromático do Arinto.
Vieram, por fim, os dois restantes vinhos. O primeiro foi um varietal de Verdelho, o Adega do Vulcão, 2023, DO Pico, com 12,5% (v/v) de álcool e 6 g/l de acidez total, pela primeira vez engarrafado. Era um branco deliciosamente austero, como é timbre da casta, fermentado com leveduras indígenas, a exemplo de todos os outros, e decerto com um grande potencial de envelhecimento. Para quem gosta do estilo, como eu, é um “must”, para quem tem o palato sensível e reage mal à austeridade só tem que lhe dar uns anos, de modo a refinar, intensificar e complexificar aromas e sabores.
Por fim, veio o tão ansiado Capelinhos, 2023, IG Açores, feito, pela primeira vez, exclusivamente, com uvas do Faial. Importará assinalar que a vinha foi plantada, em 2016, nas cinzas vulcânicas expelidas pelo vulcão em 1957, que soterraram os antigos currais, onde havia vinha, antes da erupção. É, portanto, um vinho único, feito com uvas de um solo ainda em formação e com uma riqueza mineral prodigiosa, vinda das entranhas da terra e ainda quase incólume. Foi feito com uvas de Arinto dos Açores e Terrantez do Pico, tem 13 % (v/v) de álcool, 6 g/l de acidez total e fermentou em cubas de cimento com controlo de temperatura. Devo confessar que antes de o provar me senti condicionado pelo dramatismo do rótulo, que recorda uma das violentas erupções de 1957. Por isso, não fiquei surpreendido quando achei que o vinho tinha aroma e sabor “vulcânico”! Decerto que o cérebro me enganou, pois até descortinei notas de enxofre, próprias do vulcanismo. Rendi-me à coragem e criatividade do casal italiano, que decidiu plantar a vinha em local tão inusitado, sem medo que surja, a qualquer momento, nova erupção que a destrua. Estão, pois, de parabéns, pois conseguiram fazer um vinho verdadeiramente telúrico, que correrá mundo e trará fama aos Açores.
Como nota final, cumpre-me recordar que os italianos têm dado um inestimável contributo para a vitivinicultura açoriana, desde os primórdios. Com efeito, não podemos esquecer que a grande casta do Arquipélago — o Verdelho, que já criou descendência com o Arinto dos Açores e o Terrantez do Pico — terá vindo do Mediterrâneo, quiçá da Sicília ou, mesmo, da Península Italiana (aguardemos que os ampelógrafos moleculares decifrem rapidamente a sua origem). Também importa ter em conta que o famoso licoroso Verdelho, que encantou a Europa e os czares da Rússia, terá tido a mão dos frades Franciscanos, cuja origem é Assis, onde criaram o célebre vinho de passas “Vin Santo” e que, decerto, replicaram noa Açores, como vinho de missa e, também, como riqueza a exportar para a Europa e Américas. Se dúvidas eu tivesse, deixei de as ter quando vi, com atenção, as prensas e os esmagadores expostos no Museu do Vinho da Madalena, exatamente iguais às usadas em Itália para fazer o Vin Santo. Por isso, antes de me despedir dos nossos anfitriões, não resisti à tentação de os desafiar a fazerem um licoroso de Verdelho, no Pico ou no Faial, para homenagear os italianos pioneiros do chamado “Verdelho passado”.