19/06/2026
Todas as sextas-feiras são santas.
Não me atingem mais as cruzes, os açoitadores, os espinhos e vinagres. Desde que conheci Osàlá, aprendi que aos injustiçados a verdade é água limpa que recai sobre todos os sujos pela mão do acaso, de carvão ou dendê. É desnecessário o alarde, a vida não deixa nada pela metade.
Não dá a César o que é de César, mas faz o cego enxergar o que não quer ver.
O trapo outrora imundo e rasgado, virou manto branco e perolado, pó de efun que recaiu sobre as chagas e feridas nos meus joelhos que bateram no chão de uma via crucis qualquer. Nas mãos e pés pregados nas situações das quais eu não pude sair. Ele com os olhos mais velhos e cansados do mundo, sempre me olhou como quem pergunta “Quem te levou a esse caminho que é seu?”
“, e já sabendo que Ele sabia
todas as respostas, finalmente entendi também o significado de perdoar quem não sabe o que faz, principalmente quando esse alguém sou eu. Não tem via, nem crucis, nem pregos.
Tudo é caminho e absolutamente todo caminho é verdade e vida, se boa ou ruim, só o Tempo dirá. Com ele tudo passará, ainda que devagar e solene como quem carrega o mundo nas costas, o homem mais velho da Terra, ou rápido como batimentos do recém nascido que acaba de chegar enquanto outro ciclo se encerra. Tudo passa, mesmo que me juntem aos ladrões, mesmo que lavem para mim suas mãos, mesmo que me isolem em prisão, ou qualquer outra ameaça.
Osàlá me entregou a chave do meu calabouço: calar mais do que eu ouço, ainda que isso me custe fazer o que não quero.
Contra todas as possibilidades de me deixar queimar por fora e por dentro feito Nero, vi em seu cajado as marcas contra o chão duro que me diziam “Eu também já estive aqui e tudo passou”. Osalá é minha certeza de que no terceiro dia, eu já ressucitei mais de dez vezes, o galo cantou mais de dezesseis e eu fui feliz em todas elas.
Desde que conheci Osàlá, todas as sextas-feiras são santas.