20/03/2026
Quando a doença não basta
Há decisões que não são apenas políticas.
São humanas — ou a ausência delas.
Há precisamente oito dias, na Assembleia da República, assistimos a uma votação que nos obriga a perguntar:
onde está a humanidade de quem decide?
Faz hoje oito dias, que PSD, CDS e PS, rejeitaram a possibilidade de garantir a 100% o subsídio de doença a pessoas com cancro. Rejeitaram, na prática, a tranquilidade mínima de quem já luta pela vida.
Porque ninguém escolhe ter cancro.
Ninguém escolhe a dor.
Ninguém escolhe ver o próprio corpo transformar-se num campo de batalha.
E, no entanto, quem luta contra esta doença continua a receber apenas uma parte do que precisa para viver.
Como se a dor fosse parcial.
Como se a fragilidade pudesse esperar.
Como se a vida pudesse ser vivida pela metade.
Mas não pode.
As despesas aumentam.
Os tratamentos exigem deslocações constantes.
Os medicamentos acumulam-se.
A energia desaparece.
E, no meio de tudo isto, o rendimento diminui.
E há famílias.
Há filhos que já enfrentam o medo e a angústia —
e ainda carregam o peso da insegurança dentro de casa.
Isto não é apenas uma decisão técnica.
É uma escolha moral.
É obrigar alguém a travar uma dupla batalha:
lutar para viver… e lutar para não cair.
E há algo ainda mais profundo, mais silencioso:
a forma como a doença, aliada à insegurança, fere a dignidade.
Quem deixa de trabalhar por necessidade começa a sentir-se invisível, um peso, alguém que já não contribui, alguém que depende.
E isso dói — de uma forma que não aparece em exames.
Uma sociedade mede-se na forma como cuida dos seus mais frágeis.
Não nas palavras.
Mas nas decisões que toma quando ninguém está a ver.
E desta vez, falhámos.
Falhámos quando protegemos interesses maiores e esquecemos o essencial.
Porque, como escreveu Nicolau Maquiavel:
"Os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do património."
Talvez seja isso que mais assusta.
Quando o que se perde em dinheiro pesa mais do que o que se perde em humanidade.
Mas ainda vamos a tempo de escolher diferente.
Porque ninguém escolhe ter cancro, senhores deputados. Mas todos podemos escolher ser humanos.