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Desarrolhar DESARROLHAR ®: tirar a rolha a; destapar; abrir

Difícil é escolher...
30/08/2026

Difícil é escolher...

Há comidas que começam muito antes de acendermos o forno. Começam na infância, quando aprendemos que deitar comida fora ...
30/08/2026

Há comidas que começam muito antes de acendermos o forno. Começam na infância, quando aprendemos que deitar comida fora era quase um pecado.

Hoje fiz um arroz de forno de leitão. Nasceu das sobras: da carne que ficou, dos pedaços agarrados aos ossos, da pele que já tinha perdido o estaladiço.

Antigamente chamávamos-lhe comida de pobre.

Hoje penso que era apenas comida de quem sabia o verdadeiro valor das coisas.

Naquelas cozinhas antigas, os restos nunca eram apenas restos. A carne transformava-se num arroz, os ossos num caldo, o pão duro ganhava outra vida. Não se falava em sustentabilidade. Havia simplesmente respeito, pela comida, pelo trabalho e por quem tinha posto alguma coisa na mesa.

Hoje deixei o arroz beber o sabor do leitão e devolvi a pele ao forno até f**ar novamente dourada e crocante.

No fundo, este arroz trouxe-me uma memória que talvez nunca tenha acontecido exactamente assim. Uma cozinha antiga. Um forno quente. Alguém a dizer que a comida não se deita fora. Um prato colocado no centro da mesa. E nós, pequenos, sem percebermos que, enquanto comíamos, estavam também a ensinar-nos uma maneira de estar no mundo.

Hoje percebo.

Respeitar as sobras é respeitar quem teve pouco.
É respeitar quem trabalhou para que houvesse alguma coisa.
É respeitar a comida e a memória.

No copo, Buçaco Bairrada DOC Bruto Natural, vindima de 2019. Bairrada no prato, Bairrada no copo. O espumante frio, seco e vivo contra a gordura quente do leitão. As bolhas a limpar a boca para a garfada seguinte. Um vinho bonito ao lado de um prato nascido de sobras, e talvez esteja precisamente aí o luxo que mais me interessa.

E, para terminar, um Pão de Deus. Coco, açúcar, pão e memória. Uma daquelas coisas simples que parecem saber melhor quando nos lembram de quando éramos pequenos.

Talvez o verdadeiro luxo seja isto, não desperdiçar, mas transformar. Fazer de ontem o almoço de hoje.

Comer devagar o que o tempo nos deixou
e encontrar, entre uma garfada e outra,
um bocadinho da infância que julgávamos perdido.

Porque há dias em que a sobremesa não é o fim da refeição.
É o caminho de volta a casa.

Estou consoladinho da vidinha

Preparativos para o almoço: quem adivinha?
30/08/2026

Preparativos para o almoço: quem adivinha?

Há refeições que....parou tudo!Começámos com umas vieiras coradas, servidas com caril de coco cítrico, laranja e aquela ...
29/08/2026

Há refeições que....parou tudo!

Começámos com umas vieiras coradas, servidas com caril de coco cítrico, laranja e aquela textura crocante da broa. Um prato delicado, mas cheio de contraste, a doçura da vieira, a acidez, o perfume dos citrinos, o lado exótico do caril… tudo no ponto.

Depois veio o risotto de polvo. Cremoso, intenso, guloso, com o polvo a aparecer em diferentes texturas e pequenos apontamentos verdes a cortar a riqueza do prato. Daqueles risottos em que, depois da primeira garfada, já sabemos que vai ser difícil deixar alguma coisa no prato.

E para acompanhar, uma garrafa que transformou o almoço noutra coisa: Gonçalves Faria Branco 2014, Bairrada.

Uma produção de apenas 1832 garrafas, já com doze anos de evolução, e absolutamente extraordinário. A cor no copo denunciava logo o tempo, mas o vinho estava vivo, complexo, profundo, elegante. Daqueles vinhos que mudam a cada minuto e que nos obrigam, de vez em quando, a pousar os talheres e voltar ao copo.

Podia falar de aromas, acidez, evolução, comprimento de boca… mas há momentos em que as palavras começam a atrapalhar.

Este vinho estava simplesmente indescritível.

E talvez os melhores vinhos sejam precisamente esses: os que, por alguns minutos, nos fazem desistir de tentar explicar. E acima de tudo estar com a mulher e os filhos, só isso.

Vieiras, risotto de polvo e um Gonçalves Faria Branco 2014. Um almoço que vai f**ar na memória...

Estou consoladinho da vidinha

Há sabores que mudam connosco.Em miúdo, nunca fui grande apreciador de bacalhau. Curiosamente, o bacalhau com natas era ...
28/08/2026

Há sabores que mudam connosco.

Em miúdo, nunca fui grande apreciador de bacalhau. Curiosamente, o bacalhau com natas era uma das poucas excepções: talvez pela cremosidade, pelas batatas, pelo gratinado bem dourado… assim, o bacalhau já me convencia.

Hoje acontece precisamente o contrário da infância, gosto genuinamente de bacalhau e percebo muito melhor a enorme versatilidade deste peixe tão nosso. Mas o bacalhau com natas continua a ter aquele sabor especial, porque traz sempre alguma memória.

Foi o jantar de hoje, bacalhau com natas, bem cremoso por dentro e tostado por cima.

No copo, um Royal Palmeira Loureiro 2016. Um branco já com alguns anos, de cor dourada e com aquela evolução que torna a combinação ainda mais interessante. A frescura e a acidez ajudam a cortar a riqueza das natas, enquanto a maturidade do vinho acompanha muito bem o lado mais untuoso e gratinado do prato.

Engraçado como crescemos e há coisas que em criança quase recusávamos e que, muitos anos depois, procuramos à mesa.

E talvez a comida seja também isso, uma forma de regressarmos, por alguns minutos, a quem fomos.

Estou consoladinho da vidinha

Hoje, a sobremesa foi um clássico que nunca desilude: Romeu e Julieta, queijo com marmelada.Mas desta vez resolvi dar-lh...
27/08/2026

Hoje, a sobremesa foi um clássico que nunca desilude: Romeu e Julieta, queijo com marmelada.

Mas desta vez resolvi dar-lhe um pequeno desvio: queijo suíço, de sabor mais intenso e ligeiramente amanteigado, com uma marmelada bem portuguesa. Dois mundos diferentes no prato, mas que se entendem surpreendentemente bem. E, confesso, gosto sempre de juntar uns rolitos, porque há pequenos vícios que não precisam de explicação.

No copo, uma Martha’s Colheita 2005. Para mim, uma das melhores colheitas desta casa. Comprei este Porto há cerca de sete ou oito anos e, na altura, trouxe umas cinco garrafas.

Esta era a última.

Há garrafas que vamos guardando à espera de uma ocasião especial. E depois percebemos que, às vezes, a ocasião especial é simplesmente esta: uma sobremesa simples, um bom copo de Porto e o prazer de abrir aquilo que durante anos fomos adiando.

Queijo suíço, marmelada portuguesa e um Colheita 2005.
Romeu e Julieta, mas com sotaques diferentes.

Estou consoladinho da vidinha

Há almoços que não precisam de grandes cerimónias, apenas de bons ingredientes, algum tempo e garrafas escolhidas com in...
27/08/2026

Há almoços que não precisam de grandes cerimónias, apenas de bons ingredientes, algum tempo e garrafas escolhidas com intenção.

Hoje foi uma alheira caseira de porco e castanhas, feita no ano passado, daquelas em que o tempo também entra na receita. Suculenta, intensa e ligeiramente adocicada pela castanha, acompanhada por batata gratinada com cogumelos, cremosa por dentro e bem tostada à superfície.

Um prato assumidamente outonal servido ainda em agosto, porque à mesa as estações também podem ser uma escolha.

Nos copos, dois vinhos em registos completamente diferentes.

Primeiro, o Bella Elegance Pinot Noir 2024: jovem, leve e fresco, com a fruta e a acidez a cortarem a untuosidade da alheira e do gratinado. Um vinho que não tenta dominar o prato; acompanha-o, limpa o palato e pede outro garfo.

Depois, o Post Scriptum de Chryseia 2016. Aqui a conversa muda. Dez anos de evolução dão-lhe outra profundidade, outro peso e sobretudo outra serenidade. Mais escuro, mais complexo, com a fruta já menos exuberante e os sabores terciários a começarem a ocupar o lugar principal. Com a carne de porco, os cogumelos e o tostado do gratinado, encontrou naturalmente o seu território.

Curiosamente, não houve propriamente um vencedor. O Pinot Noir trouxe frescura; o Post Scriptum trouxe profundidade. Um abriu o almoço, o outro deu-lhe memória.

E talvez seja isso que mais gosto nestas refeições: pegar numa alheira que fiz no ano passado, abrir uma garrafa de 2016 e perceber que, por algumas horas, o tempo também se pode sentar à mesa.

Estou consoladinho da vidinha

Há jantares que não precisam de grandes invenções, apenas bons ingredientes, tempo e uma garrafa à altura.Hoje, um belís...
21/08/2026

Há jantares que não precisam de grandes invenções, apenas bons ingredientes, tempo e uma garrafa à altura.

Hoje, um belíssimo polvo no forno, bem tostado, com batata e cebola, regado generosamente com azeite. Cozinha portuguesa no seu melhor, simples, intensa e cheia de sabor.

Para acompanhar, um Quinta das Bágeiras Super Reserva Bruto Natural 2022. Seco, fresco e com aquela acidez que limpa o palato e pede outra garfada de polvo. Uma combinação que funcionou lindamente.

Às vezes, a felicidade cabe num prato de polvo e um copo de Bairrada.

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Há almoços que parecem ter sido pensados por alguém com muito juízo. E depois há os meus repastos improváveis, encontros...
19/08/2026

Há almoços que parecem ter sido pensados por alguém com muito juízo. E depois há os meus repastos improváveis, encontros de coisas que talvez não devessem sentar-se à mesma mesa e que, no entanto, eu não trocaria por nada.

Hoje começou assim, com uns belos mexilhões, simples, generosos, cheios daquele sabor a mar que dispensa apresentações. Depois, uma daquelas comidas que não precisam de pedir licença à modernidade, grão de bico com bacalhau. Comida antiga, honesta, doméstica. Daquelas que sabem a casa, a domingo dos pobres e a mesas onde o pão nunca f**a longe.

E, porque certos jantares merecem companhia à altura, abri uma garrafa que guardava com particular curiosidade, Quinta de San Joanne Terroir Mineral Branco 2018.

Tenho um carinho enorme por este produtor. Há vinhos que bebemos e há vinhos em que reconhecemos uma maneira de olhar para a terra. Este, já com alguns anos em cima, chegou à mesa sem pressa, com personalidade, carácter e aquela mineralidade que o nome promete e encontrou no bacalhau e nos mexilhões uma companhia improvável, mas belíssima.

No fundo, talvez seja isto que mais gosto à mesa, não a perfeição, mas o encontro.

Um prato de mexilhões.
Grão com bacalhau.
Uma garrafa de 2018.

Nada de extraordinário.

E, ao mesmo tempo, não trocava este almoço por nada.

Estou consoladinho da vidinha

Hoje fiz um costeletão de Barrosã, de um animal com 10 anos.E nestes momentos não vale a pena inventar muitos adjectivos...
16/08/2026

Hoje fiz um costeletão de Barrosã, de um animal com 10 anos.

E nestes momentos não vale a pena inventar muitos adjectivos.

Inexcedível.

Carne com idade, com gordura, com carácter e, sobretudo, com sabor. Daquele sabor profundo e persistente que nos recorda que a verdadeira carne não precisa de artifícios: precisa de origem, tempo, respeito e fogo.

Textura extraordinária, gordura absolutamente deliciosa e uma intensidade que dificilmente se encontra numa carne de animais muito jovens. Cada garfada parecia ter qualquer coisa para contar.

Há produtos que não precisam que o cozinheiro lhes faça grandes favores. O melhor que podemos fazer é não os estragar.

Este costeletão era um deles.

Barrosã. 10 anos. Fogo. Sal.

E pouco mais há a dizer.

Inexcedível.

Para beber, Messias Bairrada Branco Seco Colheita 1988

Este Messias Branco 1988 estava simplesmente fantástico. Brutalmente bom. Uma belíssima aquisição e, sem qualquer hesitação, um dos melhores brancos velhos que já bebi.

Quase quatro décadas dentro de uma garrafa e o vinho ainda ali estava vivo, complexo, cheio de carácter, com aquela profundidade que só o tempo consegue construir. Não era apenas um vinho velho que resistiu. Era um grande vinho que soube envelhecer.

Mas houve um pormenor que me deixou particularmente impressionado: a rolha.

Depois de 38 anos, saiu praticamente inteira e cumpriu aquilo para que foi colocada naquela garrafa em 1988, proteger o vinho. Uma rolha destas faz corar talvez 90% das rolhas que encontramos hoje.

E isto deixou-me a pensar.

Começo a achar que antigamente havia outro respeito pelo produto e talvez também pelo cliente. Faziam-se coisas para durar. Escolhiam-se materiais pensando não apenas no momento da venda, mas no que aconteceria muitos anos depois. Havia uma espécie de compromisso entre quem produzia e quem comprava.

Hoje fala-se tanto em qualidade, em premium, em excelência. Em 1988, aparentemente, bastava colocar uma boa rolha numa boa garrafa de vinho e deixá-la atravessar o tempo.

Trinta e oito anos depois, alguém a abriu.

E o vinho ainda tinha muito para dizer.

Estou consoladinho da vidinha

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