Taberna do Lagoa – do Passado ao Presente
A Taberna do Lagoa, uma das mais antigas tabernas da cidade de Leiria e das poucas que ainda resistem ao passar dos anos, deve o seu nome ao seu antigo proprietário Joaquim de Oliveira Lagoa. O Sr Lagoa, como era conhecido na cidade, em 26 de Março de 1930 adquire uma propriedade nos arrabaldes da cidade do Liz denominada Quinta do Cabeço d’el Rei. Perde-s
e no tempo as origens da Quinta e quem a fundou, mas ainda restam vestígios da sua antiguidade. A mais significativa é a fonte da quinta datada no seu brasão com a data de 1860. Conta-se que foi deste cabeço que o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, lançou a investida contra os mouros conquistando-lhes a fortaleza onde hoje se encontra o medieval castelo reconstruído sob o desenho do arquitecto Ernst Korrodi. Esta propriedade era muito próspera. E ganhou maior vitalidade agrícola e vitivinícula depois que foi adquirida pelo Sr Lagoa. Pessoas de idade ainda se recordam dos ranchos de assalariados que procuravam esta quinta e outras para arranjar meios de sustento. Pela tradição familiar sempre se ouviu dizer que na casa principal da Quinta sempre existiu um armazém de vinhos. Mas foi em 1949, após a expropriação por parte da Câmara Municipal de Leiria, a 22 de Abril, de quase dez hectares para construção da zona desportiva, que o proprietário solicitou a licença de abertura de um estabelecimento de vende de vinhos e seus derivados. O alvará de licença sanitária vem deferido a 5 de Setembro de 1949. E o alvará do Governo Civil de Leiria é assinado pelo seu Governador Dr Afonso Eduardo Martins Zúquete a 15 de Fevereiro de 1950. A Taberna do Lagoa, como ficou conhecida, era um lugar de convívio como outras tabernas o eram. Longe da imagem que hoje se tem destes estabelecimentos, conotados com bebedeiras e confusões, a taberna era um lugar frequentado por todas as classes sociais, onde se falava da política ao desporto, do trabalho e da família e onde se faziam grandes amizades e se tratavam de negócios. Ganhava vida pela altura do S. Martinho com a água pé caseira, o chouriço e a morcela assada. Depois o vinho novo no final do ano ou início de Janeiro. Depois da morte do seu proprietário, em 1958, a Taberna do Lagoa passou para a sua esposa Guilhermina de Jesus Mateus e em 1967 desta para o seu filho José Pereira Viva e sua esposa Emília Vieira, mais conhecida por Ti Milia, recentemente falecida quase nonagenária. Foi a Ti Milia com o seu jeito para o negócio e o seu trato afável, grande contadora de anedotas, que cativou ainda mais clientes. Era confidente de muitos e em momentos de maior carestia, consoante as suas posses, ajudou a muitos, fiando o que fosse necessário. Ainda se guardam alguns livros dos fiados, verdadeiras relíquias de memórias. A fama desta Taberna foi-se estendendo para além da cidade levada pelos militares que cumpriam o tempo da recruta em Leiria e os adeptos de futebol que entretanto visitavam a cidade para ver as suas equipas jogar com as equipas de futebol da cidade, particularmente a União Desportiva de Leiria, fusão de vários clubes locais. Em 05 de Janeiro de 1985 a Taberna do Lagoa passou para o neto Rui Vieira Pereira Viva, conhecido pelo Rui Lagoa. Procurou modernizar o espaço, introduzir novos petiscos, mantendo a tradição sem esquecer as novas exigências do tempo. O edifício familiar, provavelmente datado da segunda metade do século XIX, onde funcionou a Taberna Lagoa no seu rés do chão ao longo de décadas, foi demolido num domingo de Janeiro de 2003, aquando a construção do novo estádio municipal. Foram infrutíferas as diligências da família Lagoa no sentido de salvaguardar o edifício. O progresso que não respeita o património cultural e arquitectónico é tudo menos progresso. O último dia em que a Taberna do Lagoa funcionou do primitivo edifício foi o dia de Natal de 2002. Enquanto decorreram as obras do estádio municipal de Leiria a Taberna funcionou num pré-fabricado perto do edifício da Nerlei, enquanto se edificava a réplica do novo edifício, um pouco mais recuado em relação ao lugar original, ocupado pelo estádio e pela estrada de circulação automóvel. Em 2004, ano do Europeu de Futebol em Portugal, a Taberna do Lagoa muda-se para o novo edifício. Costuma-se dizer que a tradição já não é o que era. Muitos clientes já partiram. As histórias mais antigas vão-se perdendo na memória dos anciãos. O edifício já não é o mesmo. Mas a Taberna do Lagoa procura manter a tradição, não só dos petiscos saborosos e do bom vinho a copo, do balcão em mármore e dos jogos de cartas, mas também da tradição familiar que, de geração em geração, vai mantendo o negócio. Com o falecimento de Rui Viva, em 2005, o negócio actualmente está nas mãos da sua esposa Adelaide dos Santos Viva. A Taberna continua nas mãos da família que perpetua assim as histórias de outros tempos, memórias de pessoas que já cá não estão, e os segredos dos petiscos que abrem sempre o apetite dos mais enjoados. O edifício não é o mesmo. Mas uma casa são sobretudo as pessoas e o ambiente que se constrói. Vivemos no tempo dos Bares, dos Take-Away, dos Fast-food, dos Buffets. Das Roulottes de bifanas, dos cafés anónimos onde somos atendidos, muitas vezes, de forma formal. Voltar a ir à taberna, a saborear os petiscos tradicionais da nossa gastronomia, a distrair um pouco com os amigos num ambiente agradável não só é possível mas cada vez mais recomendável. Esperamos que a Taberna do Lagoa viva por muitos anos, fazendo jus ao nome da família Viva, sua proprietária, para que a tradição não se perca. Num mundo globalizado, virtual e anónimo a taberna pode ser um espaço diferente onde se pode reencontrar a alegria do socializar, ainda que sob a inspiração do deus deus Baco.