31/07/2020
Há 10 anos estreávamos A RULOTE no FIAR, Palmela. Uma provocação feita à Lola uns meses antes. Este não foi apenas um espetáculo. Foi quase uma experiência de iniciação, confrontar certas premissas do trabalho com os actores, com o texto, com a encenação, "esticar a corda" e abrir um caminho para a expressão de uma nova liberdade. O que é um acontecimento? O que é uma acção? O que a faz durar no tempo? De onde vem a necessidade de falar, de dizer algo? Como é que um texto se torna acção? De que mecanismos dispõe o actor para transformar o que acontece em cena? Etc etc. O actor aparece aqui, não para "contar uma história", mas para se increver numa história pré-existente que precisa dele para se revelar. (Entenda-se aqui "história" como, não só o enredo, mas também o contexto, a memória dos lugares, os símbolos...)
Neste caso, a "história" era uma rulote, era um ícone, um espaço, um não lugar, um movimento. E dentro dela, iam-se abrindo frechas paras outras histórias. Desenvolvíamos pequenos exercícios cujos enunciados se tornavam estrutura, gramática. Abordávamos a relação com o espaço com a mesma necessidade com que elaborávamos o texto. Texto esse nunca fixado em papel, vivo na boca dos actores, rigoroso (certos vocábulos ou formulações não cabiam em certas cenas). Os actores eram autores não só do que faziam mas do que diziam. Ainda hoje não há um guião, a peça em papel, mas tenho a certeza de que, se nos encontrássemos agora, seríamos capazes de reproduzir tudo outra vez. Atrai-me essa ideia do actor que "escreve" em tempo real, em presença do especador, o texto que diz; o actor que diz como quem age, diz porque naquele momento irrepetível, não pode estar calado.
Andámos quatro anos com o espetáculo, envolvendo na criação uma centena e meia de pessoas, lutando contra tantas dificuldades num país maniatado, burocratizado, de instituições débeis (quantos cancelamentos, adiamentos, visitas técnicas inúteis, quantas expectativas goradas, orçamentos negociados como se de mercadoria se tratasse, quanto desgaste, energia desperdiçada...). Mas as memórias boas, cá estão, sobretudo as partilhadas com as pessoas que criaram o espetáculo, profissionais e amadores, lembro-me tanto de tantos. Identifico aqui apenas o núcleo artístico, mas há muito mais: Carolina Bettencourt, Hugo Sovelas, David Granada, Gonçalo Portela, João Miguel Mota, Rita Botelho Lucas Coelho, Sofia Dias, Ana Limpinho, Patrícia Maravilha, Marta Carretas Gonzalez Ferreira, Tiago Cerqueira, Alexandre Costa, Vítor Nunes, Frederico Amaral, Rui M. Silva, Sofia de Portugal, Rui Alves, Grupo Coral 1o maio do Bairro Alentejano, ....
Vídeo de apresentação do espectáculo no FIAR XI, em Palmela, dias 31 de Julho e 1 de Agosto de 2010, às 24h00. Edição…