14/09/2026
Portugal tem a maior concentração de castas de uva autóctones únicas por área de qualquer região vinícola do mundo — um patrimônio genético que resulta de isolamento geográfico, de história de viticultura não interrompida e de um atraso paradoxalmente benéfico na propagação da filoxera.
A filoxera — o afídeo norte-americano que destruiu as vinhas europeias a partir de 1860 — chegou a Portugal mais tarde do que à maioria dos países vizinhos e com menor intensidade em algumas regiões. Este atraso, que na época foi uma tragédia económica, teve a consequência de preservar variedades de uva que tinham sido completamente eliminadas em França, Espanha e Itália onde a replantação após a filoxera foi dominada por um número muito menor de castas resistentes e comercialmente valorizadas.
Das 250 castas autóctones identif**adas em Portugal, apenas 20 a 30 têm plantação signif**ativa e mercado reconhecido. As restantes 220 existem em parcelas isoladas de produtores individuais, em quintais de aldeias serranas, ou apenas em amostras preservadas pelo banco de germoplasma do INRB em Dois Portos.
A Alvarinho é o caso de estudo mais citado: uma casta praticamente desconhecida fora do Entre-Douro-e-Minho até aos anos 1980, que em quarenta anos se tornou uma das castas brancas mais cotadas internacionalmente, com preço médio por garrafa entre duas e cinco vezes o das castas equivalentes de outras regiões. Este percurso foi possível exactamente porque a casta era única — Portugal tinha algo que nenhum outro país podia replicar.
250 castas. 220 que o mundo ainda não descobriu. E que estão a desaparecer antes de alguém as tentar.